quinta-feira, 11 de março de 2021

UM POEMA DE RITA TABORDA DUARTE

 


3. MULHER DE OUTONO

O outono é uma estação de mulheres
frágeis. 
Só no outono se pode ser folha
lançada à gravidade de um voo sacudido.

E caem com a calma as folhas, o solo é grande...

Mas a mulher que se queira folha é árvore
afinal: não cai
mesmo se morre, mesmo que tudo lhe caia:
as folhas  os filhos  um coração infértil  rasando as raízes.
À mulher caem-lhe os seios maduros como frutos.

A mulher é só uma árvore no outono
e queria-se pássaro
inteiro e cíclico
na primavera fortuita  dos seus ramos.

Rita Taborda Duarte, in Elogio do Outono ou da ciclópica indiferença, edição 100 cabeças, Abril de 2014, s/p.

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