Escrevo a dezoito sobre o dezassete para publicar a
dezasseis. É uma das vantagens da tecnologia, podemos andar para trás no tempo,
apagar memórias, pôr em prática a imaginação segundo Ludwig Wittgenstein.
Apercebo-me, por exemplo, de falhas na memória que não creio selectivas. Apago
rapidamente nomes, fios narrativos, ambientes. Uma exposição inaugurada no
passado dia 10: Contranatura, de Bartolomeu de Gusmão e Sebastião Casanova.
Gosto do ramo podre da natureza morta, em contraste com o painel de nudes numa
das paredes. Representar nudes, a fetichização do corpo próprio segundo si
mesmo. Não é preciso ir aos livros para saber que estamos impossibilitados de
nos observar, isto é, de chegarmos com os olhos a certas partes do corpo.
Recorrendo a espelhos, câmaras, smarthpones, estas nudes mostram como o ser
humano busca aceder-se a si mesmo, ao que lhe é vedado pelos sentidos, as
partes a que os olhos não chegam. Ninguém vê as suas costas senão recorrendo a
um intermidário. Pintar estas poses, estes nus contemporâneos, é diferente de sugerir a pose que se
pretende pintar, há uma subjectivação do olhar, da perspectiva, típica do
individualismo em que a pós-modernidade nos enclausurou. Um dia aprenderemos a
escapar ao Eu, a libertarmo-nos do Eu, a soltarmo-nos do Eu, a
desagrilhoarmo-nos do Eu. O Eu, a prisão. Uma peça, exercício final de alunos
de teatro: Estreito, de Joana Craveiro. Polifonia improvável de vozes poéticas
a partir de uma questão: o que pode a poesia em tempos de ruína. Velha questão.
Bem, algumas das vozes seleccionadas pouco têm a dizer-nos sobre o tema. A
música dos Godspeed You! Black Emperor, ao contrário, tem tudo a dizer-nos
sobre ruína. Pergunto-me sobre o grau de aprofundamento em torno daquelas
palavras, as de Herberto, Bolaño, Audre Lorde, Adília, Rupi Kaur, Mahmoud
Darwish... Alguns quadros interessantes: a rapariga sentada, a ler, em cima da
máquina de escrever, a terra vazada sobre o corpo erecto, a água a escorrer
sobre os rostos, os objectos espalhados pela cena, os carros de mão repletos de
sapatos, num labirinto de referências confusamente entrelaçadas. Mas gostei de
ver as miúdas e os miúdos, o modo como os corpos serviam as palavras permitindo
que os versos ressoassem na sala. O Insulto ao Público, porém, não resultou,
ficou aquém do que o público merecia verdadeiramente. O próprio texto de
Handke, hoje em dia, teria de sofrer algumas adaptações. O público merece cada
vez mais uma verdadeira chapada nas trombas.
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