quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

NOTA DE RODAPÉ

Escreves a partir do que és ou a partir do que leste? Lês a partir do que vês ou do que és? És o que vês, vês o que leste? Texto semeia texto semeia texto semeia texto. E alguém colhe, o leitor é um jardineiro. Melhor: o leitor é o madeireiro. Também pode ser o caracol de estimação do autor, com a sua casa às costas, com o texto debaixo do braço. Agora a sério, acordei com o som de um pingo no autoclismo, muito mais intenso do que o som da água a correr no rio aqui ao lado, e como ela corre, e como vai cheio o rio com seu caudal de inverno. As cores das folhas no chão dizem-me mais do que as cores das folhas brancas sobre a mesa. Depois há a neblina que se mistura com o fumo da madeira a arder nas salamandras, o calor que se mistura com a respiração dos cães, a luz que ilumina os degraus traiçoeiros, o escuro que clareia, a luminosidade escurecida, a porra do oxímero e da anáfora, ambos saturados pela prática. Sempre que regresso ao Livro do Desassossego sinto que nunca de lá saí, posso ter-me escapulido da prisão numa fuga espectacular e quase fatídica, mas a prisão continuou dentro de mim como sempre continua dentro daquele que nela se fez ser. Agora apetecia dizer: abri as portadas e espreitei-me a passear lá fora, estava mais velho, definitivamente mais velho, mas mantinha-me inalteravelmente inseguro como uma corrente esquecida num portão enferrujado. E cambaleava de sonhos abandonados na rua como lixo depositado por outrém em que eu próprio tropeçava. Adenda: reparei hoje que morreu Afonso Romano de Sant'Anna em Março passado, vai fazer um ano. Outro em nota de rodapé.VR.

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