quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

UM COPO, UM TEXTO

Não creio que o gosto seja ideológico, sobretudo num período histórico esvaziado de ideologia como o nosso. O gosto forma-se e transforma-se com o tempo, quer a nível individual, micro, quer a nível social, macro, como verificamos quando olhamos para as tendências que percorreram e continuam a percorrer a história da humanidade. Kant, por exemplo, admitia uma dimensão subjectiva no gosto, mas não rejeitava a pretensão de universalidade desta subjectividade. Para o gosto contribuem a educação, a formação, o ambiente social, a herança cultural e, estou hoje convencido disso, a disponibilidade de cada um para se aventurar no desconhecido, a curiosidade que alimenta o desejo de encontro, de cruzamentos potenciadores dessa transformação a que o gosto está sujeito. Ao longo da vida, não gostamos sempre das mesmas coisas e da mesma maneira. Porquê? Talvez isto tenha que ver com os níveis de conhecimento que acompanham o desenvolvimento pessoal, estudado, em diversas vertentes, por Piaget, Erikson, Freud, Vygotsky (são os que mais se estudam em Psicologia do Desenvolvimento). As teorias do desenvolvimento cognitivo, social, sexual, etc., são relevantes nesta matéria, pois ajudam a entender como também na formação ou deformação do gosto está implicada a relação da pessoa com o mundo. A única ideologia que aqui importa é anterior à formação do gosto, é aquele que ou se preocupa ou descura com/as condições que tornam possível o desenvolvimento do gosto. Portanto, continuamos cativos dos meios que tornam possível ou impedem a emancipação. Epicuro já falava disto quando defendia a educação das mulheres e dos escravos. As belas-artes, que são apenas um dos domínios em que o gosto se forma ou deforma, não esgotam o desenvolvimento do gosto. Na cultura de massas, o gosto é como aprender a andar de pé. Forma-se por imitação, uma imitação que ajuda à integração. Há fenómenos de idolatria, por exemplo no domínio da música popular, fenómenos de veneração, de tipo quase religioso, que colocam o artista num patamar divino, sagrado, aquele a quem se presta tributo indo aos concertos, comprando os discos, “per-seguindo” nas redes sociais, etc... Mas esses fenómenos, que não são propriamente novos, embora atinjam hoje escalas impressionantes – veja-se o fenómeno Taylor Swift – acompanham a formação do gosto, tanto por adesão como por reacção, que não me parece ter na sua base qualquer tipo de ideologia, como terá, certamente, uma forte influência das técnicas publicitárias de sedução que vieram impor-se à propaganda. A premissa de que «o gosto é ideológico» não me parece, portanto, um bom ponto de partida, conquanto a ideologia possa ser determinante na materialização de condições a partir das quais o gosto venha ou não a desenvolver-se. (Made in Casa Antero, a partir de prosa do FMR)


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