Não creio que o gosto seja ideológico, sobretudo
num período histórico esvaziado de ideologia como o nosso. O gosto forma-se e
transforma-se com o tempo, quer a nível individual, micro, quer a nível social,
macro, como verificamos quando olhamos para as tendências que percorreram e
continuam a percorrer a história da humanidade. Kant, por exemplo, admitia uma
dimensão subjectiva no gosto, mas não rejeitava a pretensão de universalidade desta
subjectividade. Para o gosto contribuem a educação, a formação, o ambiente
social, a herança cultural e, estou hoje convencido disso, a disponibilidade de
cada um para se aventurar no desconhecido, a curiosidade que alimenta o desejo
de encontro, de cruzamentos potenciadores dessa transformação a que o gosto
está sujeito. Ao longo da vida, não gostamos sempre das mesmas coisas e da
mesma maneira. Porquê? Talvez isto tenha que ver com os níveis de conhecimento
que acompanham o desenvolvimento pessoal, estudado, em diversas vertentes, por
Piaget, Erikson, Freud, Vygotsky (são os que mais se estudam em Psicologia do
Desenvolvimento). As teorias do desenvolvimento cognitivo, social, sexual,
etc., são relevantes nesta matéria, pois ajudam a entender como também na
formação ou deformação do gosto está implicada a relação da pessoa com o mundo.
A única ideologia que aqui importa é anterior à formação do gosto, é aquele que
ou se preocupa ou descura com/as condições que tornam possível o
desenvolvimento do gosto. Portanto, continuamos cativos dos meios que tornam
possível ou impedem a emancipação. Epicuro já falava disto quando defendia a
educação das mulheres e dos escravos. As belas-artes, que são apenas um dos
domínios em que o gosto se forma ou deforma, não esgotam o desenvolvimento do
gosto. Na cultura de massas, o gosto é como aprender a andar de pé. Forma-se
por imitação, uma imitação que ajuda à integração. Há fenómenos de idolatria, por
exemplo no domínio da música popular, fenómenos de veneração, de tipo quase religioso,
que colocam o artista num patamar divino, sagrado, aquele a quem se presta
tributo indo aos concertos, comprando os discos, “per-seguindo” nas redes
sociais, etc... Mas esses fenómenos, que não são propriamente novos, embora
atinjam hoje escalas impressionantes – veja-se o fenómeno Taylor Swift –
acompanham a formação do gosto, tanto por adesão como por reacção, que não me
parece ter na sua base qualquer tipo de ideologia, como terá, certamente, uma
forte influência das técnicas publicitárias de sedução que vieram impor-se à
propaganda. A premissa de que «o gosto é ideológico» não me parece, portanto,
um bom ponto de partida, conquanto a ideologia possa ser determinante na materialização
de condições a partir das quais o gosto venha ou não a desenvolver-se. (Made in
Casa Antero, a partir de prosa do FMR)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
UM COPO, UM TEXTO
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