domingo, 1 de fevereiro de 2026

LIBERTAR O FUTURO

 


Indiferentes*

   Odeio os indiferentes. Creio, como Friedrich Hebbel, que «viver significa participar». Não podem existir os apenas homens, os estranhos à cidade. Quem vive verdadeiramente não pode deixar de ser cidadão e participante. Indiferença é abulia, é parasitismo, é cobardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
   A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam quase sempre os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que cerca a velha cidade e a protege melhor do que os muros mais sólidos, do que o peito dos seus guerreiros, porque devora nas suas águas limosas os assaltantes, os dizima e desencoraja, e os faz desistir da empresa heróica.
   A indiferença opera poderosamente na história. Opera passivamente mas opera. É a fatalidade; é aquilo sobre o que não se pode contar; é o que perturba os programas, que destrói os planos, mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a destroça. O que sucede, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um acto heróico (de valor universal) pode gerar; não é tanto devido à iniciativa dos poucos que operam como da indiferença, do absentismo de muitos.
   O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça, mas porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer; deixa agrupar os nós que depois só a espada poderá derrubar. A fatalidade que parece dominar a história não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Os factos maturam na sombra; poucas mãos são vigiadas por nenhum controle, tecem a teia da vida colectiva, e a massa ignora porque não se preocupa. Os destinos de uma época são manipulados conforme as visões restritas, as finalidades imediatas, as ambições e paixões pessoais dos pequenos grupos activos, e a massa dos homens ignora-os porque não se preocupa. Mas os factos amadurecidos acabam por desaguar; mas a teia tecida na sombra acaba por se cumprir; e então parece que é a fatalidade a derrotar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um enorme fenómeno natural, uma erupção, um terramoto de que todos são vítimas, quem quis ou não quis, quem sabia ou não sabia, quem tinha estado activo ou indiferente. E este último irrita-se, desejaria subtrair-se às consequências, desejaria que se tornasse claro que ele não contribuiu em nada, que não é responsável. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos se interrogam: se tivesse feito o meu dever; se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu conselho, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos se autocriticam pela sua indiferença, pelo seu cepticismo, por não terem emprestado os eu braço e a sua actividade aos grupos de cidadãos que combatiam para evitar tal mal e se propunham conquistar tal bem.
   A maior parte deles, pelo contrário, perante os acontecimentos consumados, prefere falar de falências ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a sua ausência de qualquer responsabilidade. E não é porque não vejam as coisas claras e que, algumas vezes, não sejam capazes de prospectar belíssimas soluções para problemas mais urgentes ou para que os que, embora requerendo ampla preparação e tempo, são de igual modo urgentes. Mas estas soluções permanecem belissimamente infecundas, mas este contributo à vida colectiva não é animado por nenhuma luz moral, é produto de curiosidade intelectual, não de pungente sentido de responsabilidade histórica que implica uma vitalidade total na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de qualquer género.
   Odeio os indiferentes, também porque me aborrece a sua lamuria de eternos inocentes. Peço contas a cada um deles sobre o modo como desenvolveu a função que a vida lhe pôs e lhe põe quotidianamente, do que faz e especialmente do que não faz. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha piedade, que não devo repartir com eles as minhas lágrimas. Sou partidário, vivo, sinto já pulsar nas consciências viris da minha gente a actividade da cidade futura que a minha gente está construindo. E nela a cadeia social não pesa sobre poucos, para ela cada coisa que sucede não se deve ao acaso, à fatalidade, mas é inteligente obra dos cidadãos. Não há nela ninguém que esteja à janela, enquanto os poucos se sacrificam, se esgotam no sacrifício; e aquele que está à janela, de atalaia, quer usufruir do pouco bem que a actividade de uns poucos consegue e desafoga a sua desilusão vituperando o sacrifício, o esgotado, porque não conseguiu o seu intento.
   Vivo, sou partidário. Por isso odeio o que não participa, odeio os indiferentes.

Antonio Gramsci, in Libertar o Futuro. Textos Políticos (1916-1926), selecção e introdução de Bruno Monteiro, notas finais de Franco Tomassoni, Fora de Jogo e Seara Nova, 2.ª edição, Abril de 2024,  *Não assinado, La Città futura, 11 de Fevereiro de 1917.

Sem comentários: