terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

UM POEMA DE RAQUEL SEREJO MARTINS


L’AMOUR A CŒUR PERDU

Só penso em coisas em que não quero pensar 
só penso em ti, em nós, um nós que não existe
fora das fronteiras de uma cama
não passamos de refugiados
cidadãos desapossados
objectos perdidos e nunca achados
variáveis sujeitas à vontade dos mercados

Hoje rezei pela primeira vez a São Miguel
o príncipe da milícia celeste
rezei para me defender no combate que estou a viver
a brutalidade do boxe
a elegância da esgrima
a indispensável pontaria para praticar tiro ao alvo
a solidão da natação
a audácia dos afogados
o cansaço crónico, em coro, canónico.

Mas desde quando és uma pessoa de fé?

Rezar também é uma forma de não pensar.
Acreditar também é uma forma de não pensar
e quanto mais precisamos, mais Deus existe.

Se queres saber o que uma pessoa realmente pensa, dizes
tens de olhar para o que faz
não para o que diz
diz-se tanto dislate sem sentido
tanto disparate
diz-se até de um filho perdido

E ocupei as mãos para ocupar os pensamentos
gestos de jardineiro de bonsais
de relojoeiro helvético
de cirurgião cardíaco
desarrumei e arrumei a cozinha
ficou impecavelmente limpa
até o forno ficou a brilhar por dentro
limpava o interior do forno e pensava em Sylvia Plath
enquanto tu fizeste um bule de chá.

Estás a perguntar-me se quero um chá?
Achas que isto se resolve com um chá?

Raquel Serejo Martins, in Devoluto, prefácio de Ricardo Marques, Abysmo, Janeiro de 2026, pp. 83-84.

Sem comentários: