RUA
SERPA PINTO
Para
o meu pai.
Este
homem desloca-se
há cinquenta anos
para a mesma rua
movido pela força do trabalho
com uma vontade que não há-de
estar desprovida de paixão.
Há
cinquenta anos
que este homem sorri
a cada uma das pedras na calçada.
Viu-as adquirirem novas feições
ganharem rugas
secarem e humedecerem
como coisas vivas
da terra em que fundamos raízes.
Cinquenta
anos
de voluntário préstimo
a troco de um sentido:
levar da vida uma função.
O
mundo deste homem
talvez não caiba na rua
para onde se desloca
ainda que dela tenha feito
uma das veias do próprio corpo
onde circula o sangue
e a música do saber oficinal.
Assistiu
a tudo quanto possa
passar-se numa rua
do frenesim nas horas de ponta
ao deserto forçado
pelo abandono do centro histórico
e a ruína das avenidas novas.
Em
podendo uma rua
ser o coração de alguém
esta rua será o coração deste homem
que há cinquenta anos
nela entra
e dela sai.
Henrique Manuel Bento Fialho, in “Gazeta Literária – revista trimestral”, 5.ª série, n.º 8, direcção
e edição de Francisco Duarte Mangas, Associação dos Jornalistas e Homens de
Letras do Porto, Outono-Inverno de 2020, p. 45. Com contribuições de Francisco
Duarte Mangas, Domingos Lobo, Manuela Espírito Santo, Bernardo Santareno, Óscar
Lopes, Júlio Gago, Ana Paula Inácio, António Carlos Cortez, João Rios, Henrique
Manuel Bento Fialho, José Manuel de Vasconcelos, Jorge Sarabando, José Manuel
Mendes, Fernando Batista, Isabel Cristina Mateus, José Manuel Teixeira da
Silva, Alexandre Teixeira Mendes.
há cinquenta anos
para a mesma rua
movido pela força do trabalho
com uma vontade que não há-de
estar desprovida de paixão.
que este homem sorri
a cada uma das pedras na calçada.
Viu-as adquirirem novas feições
ganharem rugas
secarem e humedecerem
como coisas vivas
da terra em que fundamos raízes.
de voluntário préstimo
a troco de um sentido:
levar da vida uma função.
talvez não caiba na rua
para onde se desloca
ainda que dela tenha feito
uma das veias do próprio corpo
onde circula o sangue
e a música do saber oficinal.
passar-se numa rua
do frenesim nas horas de ponta
ao deserto forçado
pelo abandono do centro histórico
e a ruína das avenidas novas.
ser o coração de alguém
esta rua será o coração deste homem
que há cinquenta anos
nela entra
e dela sai.

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