LISBOA, 44
Em Lisboa, em 44, havia hortas. Vivia-se.
Em Lisboa, em 44, havia hortas. Morria-se.
Havia Angola. Não se via.
Havia Angola. Esquece.
A mão sobre a boca
Ajudava o pescoço
A segurar o osso
Dentro da cabeça
Em Lisboa, em 44, saía-se
de casa às 5 da manhã para a carvoaria,
às 5 da manhã de casa para a padaria,
às 5 da manhã de casa para a drogaria.
Um primeiro pé no escuro
E a cabeça a semear flores na almofada
E o estômago vivo cru danado verdadeiro
E os dedos frios lembravam-se
de uma ribeira clara que claro já esqueci
Era levá-los à boca
para chegar ao peito
Eram secos tinham cheiro
como os avós as espinhas
uma ramada de árvore morta
Qual terra?
Era céu.
Era cinza.
Era barro.
Junto ao Palácio das Galveias
faziam-se telhas e tijolos
com os mais modernos maquinismos.
Hoje, em Lisboa, há hortas e morre-se.
Hoje, em Lisboa, há hortas e vive-se.
No Convento da Encarnação,
num canto de um jardim,
onde se fuma, de onde se vê Lisboa,
há um quadrado de horta.
Há um senhor que vai lá cuidar dela.
Em volta há mato.
A luz não entra.
E nós à espera da morte.
Miguel Cardoso, in Mais de Mil Anos, com posfácio de Regina Guimarães, Douda Correria, Maio de 2017, s/p.
Sem comentários:
Enviar um comentário