segunda-feira, 22 de março de 2021

DAT’S IT (1955)

 


Podia dizer que Wardell Gray foi um excepcional sax tenor, que começou por brilhar ao lado do pianista Earl Hines, deu nas vistas com Benny Carter, Benny Goodman, Count Basie, trabalhou com a magnífica Mary Lou Williams antes de investir na vida doméstica e se dedicar às drogas e aparecer morto no deserto, próximo de Las Vegas, com o pescoço partido. Acidente? Crime? Ficaram as dúvidas sem resposta. Falou-se de dívidas de jogo ao gangster russo-americano Meyer Lansky. Para a história ficaram as palavras dedicadas por Kerouac em On the Road: «Ao som exuberante de Dexter Gordon e Wardell Gray a soprarem "The Hunt", eu e o Neal jogámos a lançar a Louanne um ao outro no sofá, que não era propriamente uma bonequinha frágil.» Por outro lado, há dias difíceis que obrigam a suprimir começos banais. Um poema, por exemplo: um dia também as jóias ficarão sem dedos. Nem pulso, pescoço, orelhas em que ostentar o brilho de materiais preciosos sacados à terra por gente despida. Regressaremos nus à condição primeva das plantas, dos bichos, corpo adornado pelo corpo, cientes porventura do valor que aos ossos devemos sob a terra. Pedras preciosas, semipreciosas, passo-as directamente de mão. Que lhes dêem bom uso. Ficarei apenas com o alfinete que prendia as fraldas, relógios de pulso antigos, avariados, porque neles o tempo já não corre, e um par de abacates amadurecendo na fruteira.  

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