terça-feira, 23 de março de 2021

PEOPLE (1964)

 


Foi composta para um musical da Broadway com Barbra Streisand no papel de Funny Girl. Bob Merrill escreveu a letra, Jule Styne deu-lhe música. Estou a ouvir a versão do guitarrista Grant Green, com Larry Young no órgão, gravada para a Blue Note. É das baladas mais maravilhosas que ouvi na vida, o que justifica as inúmeras covers de que foi objecto. Até o mestre Ellington lhe pegou, com o saxofone de Johnny Hodges a cantar sobre um piano relativamente escondido. «People who need people / Are the luckiest people in the world», canta a menina Streisand. Talvez Grant Green fosse um tipo solitário. Poucos anos depois de gravar o tema, viciado em heroína, começou a arrastar-se por projectos erráticos até ao declínio final. Morreu de ataque cardíaco em 1979, com 43 anos. Não sei se as pessoas que precisam de pessoas são as mais afortunadas do mundo. Para dizer a verdade, nem me interessa muito sabê-lo. Sei que prezo um certo isolamento, prefiro observar à distância e ofereço-me momentos de exílio de que não prescindo. Cá em casa dizem que me alheio com facilidade, queixam-se de que não presto atenção às conversas, vivo absorto nos meus pequenos monólogos interiores. Talvez seja isso o que me cansa nas pessoas, falam demasiado. Eu canso-me só de me ouvir em silêncio. Falta-me aptidão para escutar com atenção o outro, manter diálogos, encher chouriços, bater coros. Sou um tagarela intimista, o que redunda numa espécie de incontinência verbal, silenciosa, cuja manifestação mais visível é a escrita. Gosto de falar com os animais e com as plantas, às vezes com os mortos. Não espero que me ouçam e talvez aprecie tê-los como interlocutores por julgar que não os importuno. Não quero maçar ninguém. Vou fazer 47 anos e não sou viciado em heroína.

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