Foi composta para um musical da Broadway com Barbra
Streisand no papel de Funny Girl. Bob Merrill escreveu a letra, Jule Styne
deu-lhe música. Estou a ouvir a versão do guitarrista Grant Green, com Larry
Young no órgão, gravada para a Blue Note. É das baladas mais maravilhosas que
ouvi na vida, o que justifica as inúmeras covers de que foi objecto. Até o
mestre Ellington lhe pegou, com o saxofone de Johnny Hodges a cantar sobre um
piano relativamente escondido. «People who need people / Are the luckiest
people in the world», canta a menina Streisand. Talvez Grant Green fosse um
tipo solitário. Poucos anos depois de gravar o tema, viciado em heroína, começou
a arrastar-se por projectos erráticos até ao declínio final. Morreu de ataque
cardíaco em 1979, com 43 anos. Não sei se as pessoas que precisam de pessoas são
as mais afortunadas do mundo. Para dizer a verdade, nem me interessa muito sabê-lo.
Sei que prezo um certo isolamento, prefiro observar à distância e ofereço-me
momentos de exílio de que não prescindo. Cá em casa dizem que me alheio com
facilidade, queixam-se de que não presto atenção às conversas, vivo absorto nos
meus pequenos monólogos interiores. Talvez seja isso o que me cansa nas
pessoas, falam demasiado. Eu canso-me só de me ouvir em silêncio. Falta-me aptidão para escutar com atenção o outro, manter diálogos, encher chouriços, bater coros. Sou
um tagarela intimista, o que redunda numa espécie de incontinência verbal, silenciosa, cuja manifestação mais visível é a escrita. Gosto de falar com os animais e com
as plantas, às vezes com os mortos. Não espero que me ouçam e talvez aprecie
tê-los como interlocutores por julgar que não os importuno. Não quero maçar ninguém.
Vou fazer 47 anos e não sou viciado em heroína.

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