Dia da mulher. Não comemoro porque não sou dado a comemorações, nem o meu aniversário festejo. Mas o dia da mulher faz sentido, tem o seu sentido. Nunca se perde tempo a lembrar a praga da violência doméstica exercida sobre mulheres, e deverá ser sempre recordado que no meu país só depois de 25 de Abril de 1975 é que o direito ao voto foi universalizado. Foi há pouco tempo, parece que foi ontem. Eu ainda me recordo do dia em que minha avó Elvira cortou o cabelo pela primeira vez, desfazendo-se do carrapito que era comum as mulheres do campo usarem. E recordo-me dos comentários jocosos do meu pai, que hoje o envergonhariam. Provavelmente negá-los-ia. Há dias, a minha filha mais nova perguntou-me de onde vem a hegemonia dos homens no mundo. Causa-lhe imensa confusão, não percebe porquê. A verdade é que não é fácil explicar, pelo que não será fácil entender. Domínio físico? Por muitas discussões que possa haver sobre a natureza dessa hegemonia, certo é que se impôs nas sociedades monoteístas com uma força terrível. Qualquer leitor da Bíblia não poderá senão ficar perplexo com a discriminação a que Deus sujeitou as mulheres. É aquilo a palavra de um ser misericordioso? Fantasias. Nasci e cresci e vivo rodeado de mulheres, o que não é bom nem mau. É o que é. Mas jamais ousaria estigmatizar nas mulheres que me rodeiam uma qualquer condição de inferioridade que as diminuísse perante os direitos que reclamo para mim próprio. Antes pelo contrário. Só pelo facto de me aturarem, merecem mais do que algum dia eu poderei merecer. Hoje ouvirei Ani DiFranco, uma rapariga da minha geração.

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