sexta-feira, 26 de março de 2021

UM TEXTO DE ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL

 


MORRER DE AMOR

Na dor
Oprime-se o peito
E desvanece-se em suspiros
A silente morte que
Com passos de lã
Na meia-luz do fim da tarde
Me vem ditar a história
De António e Maria:

António enxergou a mulher a levar a xícara à boca e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas. Ali estava ela, a sua Maria, bebendo a cevada da manhã, desgrenhada, sem jeito, tão diferente da majestosa rapariga com quem casara e que toda a vida amara. Um amor sublime, de extrema meiguice, que nunca deu azo a qualquer discussão: mesmo nos momentos de maior penúria e apreensão, quando esfomeados e cansados, o ambiente chistoso perdurava, como se nada pudesse assolar a ígnea felicidade de estarem juntos. Mas desde que a demência se interpôs entre ambos, o quotidiano tornou-se permanente aflição: ela já não o conhecia, sempre belicosa e perdida nas suas elucubrações, o corpo sem arranjo, a vida em suspensão. Na obsessão de lhe atrasar a privação da memória, todos os dias a levava a passear à beira rio, pelos sítios onde tinham sido felizes, mas sempre regressava desconexo e frustrado pela inanidade dos esforços. E agora, apoquentando-lhe ainda mais o juízo, receoso que se esvaísse num qualquer buraco ou que fosse atacada pelos bichos bravios, perdia-se:
ontem, depois de três dias desaparecida, fora encontrada, exaurida, a deambular numa inverneira. Assim, António tomara uma decisão extrema e nessa manhã iam fazer um último passeio à beira rio. Haveria de se atar a ela e, num derradeiro gesto de amor, com ela se atirar aos remoinhos, ficando juntos para sempre.

Ficou assim em suspenso
Como eco sem fim
A vertigem demasiado humana
Duma vida cinzelada na escarpa dos afectos
Um vazio que se olvida
Um nada que o tempo já apagou

Adolfo Luxúria Canibal, in no fim era o frio e outros textos de amor e solidão, do lado esquerdo, Março de 2019, pp. 23-24.

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