INTERVALO
Deixa que o silêncio sufoque o eco do último grito
E que uma súbita leveza erga nossas pálpebras para os astros
No minuto inesperado que a explosão da tristeza tornará nocturno
Deixa a calma mais profunda conquistar pulsos e mãos
Como se os ponteiros parassem no fim do tempo
E não houvesse futuro devorando projectos e faces
Deixa que as luzes se apaguem
Que os desejos se extingam
Que os segredos cessem no fundo da memória
Deixa o sossego ser completo
E o silêncio tão nítido
Que o sangue se transforme num rio de medo
Latejando em nossas veias
Deixa que sejamos minúsculos e sós
Então compreenderemos o verdadeiro valor do amor na terra
Nunca mais nossas lágrimas serão simples gotas fúteis
Comunicaremos de lábios a lábios outra beleza mais lúcida
E o gesto de nos olharmos novamente regressará às origens
António José Fernandes, in Ainda Não é Tarde, edição do autor, 17.º volume do Cancioneiro Geral, 1955, p. 46.

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