Esta noite sonhei que era guru. Tinha fundado uma
comunidade de escritores, coisa do género daquela que dizem terem sido
Homero e Vyasa, uma linhagem de sábios, uma estirpe. Tudo começou com um sonho
no interior do sonho, o regresso a esse tempo primitivo em que nem autores nem
críticos literários existiam, um tempo em que as obras eram manuscritas,
anterior à produção em massa impressa, não eram obras porque as obras são do
domínio de quem obra, eram marcas de água. Dois ou três exemplares de um papiro
sobravam para fazer chegar o pensamento, a respiração do pensamento, a qualquer
canto do mundo. Convoquei vários amigos escritores para o meu sonho, para a
minha seita onírica. Mostraram-se todos hesitantes, sem excepção. Então o meu
nome deixa de aparecer na capa das obras-primas que darei à estampa?,
perguntava um. Isso, respondia eu. E os livros não terão lombada com o meu
nome?, questionava outro. Não, dizia-lhe. E ISBN? Também não. Nada de copyright
nem direitos de autor, nem Biblioteca Nacional, nem críticas no jornal do José
António Saraiva, nada de caca dauphin, seremos um só, muitos, imensos, todos
adunados na clandestinidade de uma única designação: Vayda Destü Pyda. Será
este o nome da seita, do grupo, da linhagem. Nenhum dos meus amigos escritores
quis atravessar o portal do anonimato, estavam todos engajados consigo mesmos,
deveras empenhados na sagração dos nomes de baptismo, ateus, crentes,
agnósticos, místicos, parvos, espertos, parvos com a mania que eram espertos,
espertos ignorantes de que eram parvos, todos sem excepção. Segui caminho
sozinho, isolado, insulado, guru de mim mesmo, líder da súcia dum homem só,
capitão de uma arca atolada de manuscritos que no futuro, estava certo, seriam
estudados, reflectidos, traduzidos em inúmeras línguas, objecto de teses de doutoramento
em colóquios nas mais importantes fundações, escopo das críticas do George. Acordei num desses colóquios, subordinado ao tema da "Supressão do
eu em Vayda Destü Pyda". Falava o Bicho. Fugi para a casa de
banho, fui fazer cocó.
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