domingo, 17 de março de 2024

NUNO JÚDICE (1949-2024)

 


OUTRA IMAGEM
 
Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terra
por cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos.
Os mortos vêem-nos: de onde estão, eles chamam pelos nomes
familiares, num murmúrio, e o vento dispersa-lhes os sopros
— música de ciprestes. Por isso, há quem anda entre as campas,
ao fim da tarde, com os ouvidos tapados; quem reze,
entre lábios, datas estéreis como as antigas pedras;
quem persiga a própria sombra, temendo que ela desapareça
sob a erva fresca. Memórias vagas e finais, atormentando-me
num secreto espelho — no canto de mim, absorto
e pálido, quem me diz o nome, em silêncio, sem olhos,
sem lábios, sem os cabelos que outrora toquei?
 
Nuno Júdice, do livro Lira de Líquen (1985), in Obra Poética (1972 – 1985), Quetzal Editores, 1991, p. 294.

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