SACRA TRAGICOMÉDIA
Que infelicidade, o universo
não ser apenas umbigo
e não haver interruptor
com que desligar crianças
e velhos mais néscios do
que as crianças; e não ser possível
prescindir em solidão
dos serviços prestados
por imprestáveis cristos.
O melhor de frequentar a dor
é não haver quem desinfecte
a pedra onde nos sentámos
a escrever com lágrimas nos olhos.
Fosse este o mais perfeito
dos mundos, tinham os poetas
quedado em lugar impossível
de escrever. Contemplariam céus
estrelados ao som de cigarras,
drenando feridas a talhe de foice
ou aliviando a bexiga à beira
da estrada que dá para o
mais distante de nós em nós.
Agora esta cruz? Imagina isto:
um lanho na ponta do anelar
vem-me impedindo de dedilhar
os fios do teu cabelo.
Logo um coro de castrati
se levanta a fingir não ter visto,
ouvido, sentido, a incisão precisa
no decassílabo relevando forma,
feição, talhe. Porque em vez de
levanta podia ter escrito soleva
e em vez de soleva talvez:
na orla dos teus olhos a lágrima
é o dom das chuvas que fertiliza
a terra semeada de paixão.
Não faço do calvário método,
muito menos da riqueza ambição.
Simplesmente me enfastiam
os hipermercados saturados
de lágrimas, as prateleiras
recheadas de crânios desolhados
insensíveis ao vento que traz
as chuvas e frutifica divagações.
Quase tudo quanto me é preciso
encontro no horto do vizinho
e nas ruas calcorreadas
com cães por companhia.
Ainda ontem pensava nisto,
a propósito de não sei que
sombra fantástica ou mistério.
A verdade é: se medires
a extensão aos conceitos
perdes um tempo infindável
alindando o que não tem emenda
e nem por tamanho esforço
almejarás visto gold na eternidade.
Se pelo menos fosse possível
após a morte espreitar a vida
de quem nos perscruta no túmulo,
e numa incognoscível dimensão
houvesse estalagem que servisse
língua a bom preço, ou numa
esplanada fosse viável degustá-la
sem cometer crime público…
Agora isto? Estes cristos, esta solidão
carregando a cruz do meu corpo.
Não.
Henrique
Manuel Bento Fialho, à conversa com “Divina Tragédia”, de Teixeira de Pascoaes,
in “Direito de Resposta”, selecção, prefácio e revisão de Ricardo Marques, Flan
de Tal, Abril de 2024, pp. 61-66. Antologia com poemas de Álvaro Seiça, André
Tecedeiro, Beatriz de Almeida Rodrigues, Catarina Nunes de Almeida, Catarina
Santiago Costa, Ederval Fernandes, Fernanda Drummond, Filipa Leal, Francisca
Camelo, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Dias, Inês Francisco Jacob, João
Bosco da Silva, José Pedro Moreira, Mariana Varela, Miguel Cardoso,
Miguel-Manso, Paola D’Agostino, Pedro Korres, Rafael Mantovani, Rafa (Rafaela
Jacinto), Raquel Serejo Martins, Ricardo Marques, Ricardo Tiago Moura, Tatiana
Faia.
não ser apenas umbigo
e não haver interruptor
com que desligar crianças
e velhos mais néscios do
que as crianças; e não ser possível
prescindir em solidão
dos serviços prestados
por imprestáveis cristos.
é não haver quem desinfecte
a pedra onde nos sentámos
a escrever com lágrimas nos olhos.
dos mundos, tinham os poetas
quedado em lugar impossível
de escrever. Contemplariam céus
estrelados ao som de cigarras,
drenando feridas a talhe de foice
ou aliviando a bexiga à beira
da estrada que dá para o
mais distante de nós em nós.
um lanho na ponta do anelar
vem-me impedindo de dedilhar
os fios do teu cabelo.
se levanta a fingir não ter visto,
ouvido, sentido, a incisão precisa
no decassílabo relevando forma,
feição, talhe. Porque em vez de
levanta podia ter escrito soleva
e em vez de soleva talvez:
na orla dos teus olhos a lágrima
é o dom das chuvas que fertiliza
a terra semeada de paixão.
muito menos da riqueza ambição.
Simplesmente me enfastiam
os hipermercados saturados
de lágrimas, as prateleiras
recheadas de crânios desolhados
insensíveis ao vento que traz
as chuvas e frutifica divagações.
encontro no horto do vizinho
e nas ruas calcorreadas
com cães por companhia.
Ainda ontem pensava nisto,
a propósito de não sei que
sombra fantástica ou mistério.
a extensão aos conceitos
perdes um tempo infindável
alindando o que não tem emenda
e nem por tamanho esforço
almejarás visto gold na eternidade.
após a morte espreitar a vida
de quem nos perscruta no túmulo,
e numa incognoscível dimensão
houvesse estalagem que servisse
língua a bom preço, ou numa
esplanada fosse viável degustá-la
sem cometer crime público…
carregando a cruz do meu corpo.
Não.

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