“Tilt”: Scott Walker
Scott Walker (1943 – 2019),
outro que, ao que parece, também não batia bem da bola. Ainda se podem dizer
estas coisas ou fica feio? Tinha a perturbação dos génios, por assim dizer, que
se descobrem nesse processo íntimo de alienação que nos abriga dentro das ameaças
exteriores. O mundo não são rosas, as que se vêem estão sempre envoltas em teias
de caules espinhosos. Walker, o de “Rosary”, nesse genial “Tilt” (1995) que o
resgatou do silêncio após um único disco na década de 1980, sabia desses espinhos e, a dada altura, tentando colher uma rosa no meio da teia ficou com
os braços feridos, todo arranhado, as mãos atravessadas por lanhos de onde
escorria um sangue negro. Ele chegou-nos da década de 1960 com quatro discos
homónimos, dos quais o último é bom exemplo do universo cinematográfico que o
perseguia. “The Seventh Seal” é uma canção tremenda que revela como por detrás
do crooner, em fundo neo-romântico sumptuosamente orquestrado, repousava,
por assim dizer, uma mente perturbada que viria a desaguar no compositor dos álbuns pós-1990. “The Drift” (2006) e “Bish Bosch” (2012) são reflexo de um homem cerrado dentro de si a lutar com os seus demónios
interiores. Viveu em exílio monástico, tentou suicidar-se, estudou canto
gregoriano, compôs algumas das mais esotéricas e herméticas canções de que há
memória. Percebe-se? Compreende-se? Eh pá, a gente lá vai construindo sentidos
sobre o que ali nos toca verdadeiramente: os ambientes soturnos, aterradores, misteriosos, fantásticos, indeterminados, enigmáticos, labirínticos. Essas coisas.
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