Enquanto atravessava a praça, Antero ouviu uma música.
Parou e voltou-se. Na esquina oposta, à sombra de um plátano, estava um
vagabundo a tocar um realejo. O vagabundo fez-lhe sinal e Antero dirigiu-se
para ele. Era um cigano magro e tinha um macaco ao ombro. Era um pequeno ser de
focinho irónico e triste e vestia uma farda vermelha com botões dourados.
Antero reconheceu o macaco do seu sonho e compreendeu quem era. O animal
estendeu-lhe a minúscula mão negra e Antero deixou cair nela uma moeda. Em
troca o animal tirou à sorte um papelinho colorido entre os muitos que o cigano
tinha enfiados no chapéu e deu-lho. Antero pegou nele e leu-o. Atravessou a
praça e sentou-se num banco junto do fresco muro do convento da Esperança, onde
havia uma âncora azul pintada na parede. Tirou o revólver do bolso, levou-o à
boca e puxou o gatilho. Teve um momento de espanto ao continuar a ver a praça,
as árvores, o cintilar do mar e o cigano que tocava o realejo. Sentiu um frio
morno que lhe escorria pelo pescoço. Accionou o mecanismo do revólver e fez
fogo pela segunda vez. Então o cigano desapareceu e os sinos da Matriz começaram
a bater o meio-dia.
Antonio Tabucchi, in Mulher de Porto Pim, Difel, 1983, pp.
48-49.
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