domingo, 16 de fevereiro de 2025

SOFRER DE INFINITO

 


Enquanto atravessava a praça, Antero ouviu uma música. Parou e voltou-se. Na esquina oposta, à sombra de um plátano, estava um vagabundo a tocar um realejo. O vagabundo fez-lhe sinal e Antero dirigiu-se para ele. Era um cigano magro e tinha um macaco ao ombro. Era um pequeno ser de focinho irónico e triste e vestia uma farda vermelha com botões dourados. Antero reconheceu o macaco do seu sonho e compreendeu quem era. O animal estendeu-lhe a minúscula mão negra e Antero deixou cair nela uma moeda. Em troca o animal tirou à sorte um papelinho colorido entre os muitos que o cigano tinha enfiados no chapéu e deu-lho. Antero pegou nele e leu-o. Atravessou a praça e sentou-se num banco junto do fresco muro do convento da Esperança, onde havia uma âncora azul pintada na parede. Tirou o revólver do bolso, levou-o à boca e puxou o gatilho. Teve um momento de espanto ao continuar a ver a praça, as árvores, o cintilar do mar e o cigano que tocava o realejo. Sentiu um frio morno que lhe escorria pelo pescoço. Accionou o mecanismo do revólver e fez fogo pela segunda vez. Então o cigano desapareceu e os sinos da Matriz começaram a bater o meio-dia.
 
Antonio Tabucchi, in Mulher de Porto Pim, Difel, 1983, pp. 48-49.

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