“I’m Free Now”: Morphine
Regresso aos Morphine por causa de uma epígrafe no livro
da Margarida. «Come and get me
in my sleep», cantava o malogrado Mark Sandman em The Saddest Song, a segunda de Good
(1992). Naquele ano, estava eu a aportar na capital, fui surpreendido pela
possibilidade de uma banda rock ser composta por bateria, guitarra baixo e
saxofone. Era coisa nunca antes vista, creio, e resultava. No Blitz, António
Pires falava dos Feelies e de Hugo Largo em termos comparativos, mas lá se
perdia a descrever os Morphine como «uma máquina de som que, apesar de ter uma
estrutura aparentada com o jazz, está muito mais próxima da pop “tal como nós a
entendemos”». Eu prefiro falar de rock, até porque tive oportunidade de lhes
sentir a energia ao vivo. De álbum para álbum, a conversa dos recursos
esgotados ia sendo desmentida pelos punhados de canções irrepreensíveis
maioritariamente compostas por Sandman. Cure For Pain (1993), Yes (1995), Like
Swimming (1997), não davam espaço a dúvidas: estávamos perante um dos projectos
rock mais arrojados, inteligentes e alternativos dos últimos tempos. Depois veio a noite, após um
ataque cardíaco que vitimou Sandman em palco, na Palestrina, Itália. Tinha 46
anos. Estou agora a ouvir You Look Like Rain e redescubro-lhe as raízes no Tom Waits mais jazzístico. Acho que me fico por Cure for Pain, na esperança de
que também eu possa vir a prescindir das drogas quando for livre.

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