domingo, 14 de dezembro de 2025

DENTE POR DENTE

 


DUQUE (após um momento de reflexão): Quem é esse Bernardino a que se alude na carta?
MEIRINHO: Um cigano que vivia nesta cidade e há nove anos está a apodrecer na cadeia.
DUQUE: Como se explica então que o Duque não o tivesse posto em liberdade ou mandado executar? Assim costumava fazer, segundo me disseram.
MEIRINHO: Com efeito; mas devido à influência dos seus amigos, beneficiou de sucessivos adiamentos.
DUQUE: E há provas bastantes da sua culpa?
MEIRINHO: Absolutamente; de resto, ele próprio confessa.
DUQUE: Como se tem comportado na cadeia? Mostra-se arrependido?
MEIRINHO: É um homem a quem a morte não aflige mais do que o sono da embriaguês; o futuro é-lhe tão indiferente como o passado ou o presente; a ameaça da morte não o atemoriza, e contudo encontra-se em estado de pecado mortal.
DUQUE: Precisa de ser aconselhado.
MEIRINHO: Seria inútil. Nega-se a ouvir quaisquer conselhos. Passa às vezes horas e até dias inteiros embriagado; outras vezes acordam-no e dizem-lhe que vai ser executada a sentença. Pois nem mesmo assim manifesta a mais ligeira emoção!

William Shakespeare, in Dente por Dente, repertório para um teatro actual 2, tradução de Luiz Francisco Rebello, Prelo, Novembro de 1964, pp. 72-73.

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