quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

ACTOR IN TWO ROLES

 


Diferentes linguagens cruzam-se e intersectam-se na fotografia de Jeff Wall, nomeadamente a linguagem pictórica com a cinematográfica. Em Actor in Two Roles o encontro é com as artes performativas. O díptico coloca lado a lado dois fotogramas de espectáculos, aparentemente distintos, aparentemente na mesma sala. Do lado esquerdo uma cena despida, minimalista, com oito raparigas. Quatro pré-adolescentes, todas vestidas de igual, como que marcham. Ao fundo, quatro raparigas mais velhas, também vestidas de igual, observam aquelas. É como se olhassem para si mesmas uns anos mais tarde. No fotograma do lado direito a cena minimalista transforma-se num interior. Talvez uma sala, talvez um apartamento, talvez um quarto de hotel ou pensão. De pé, uma mulher adulta. Sentado, um homem. Qual a relação entre os dois frames que formam o díptico, ou seja, a fotografia? Podemos pensá-las em conjunto ou separadamente, tentando estabelecer associações. A única constante é a presença do corpo feminino que, da esquerda para a direita vai assumindo diferentes estados de desenvolvimento: pré-adolescência, entrada na vida adulta, vida adulta. É uma hipótese. Neste caso, o díptico seria sobre a passagem do tempo, as raparigas do meio como que se encontram num estádio intermédio, crepuscular, o estádio da observação entre o que foram e naquilo em que se vão transformar. O corpo do homem, ali sentado, é como que uma espécie de acessório, o outro que, segundo Sartre, representaria o inferno. É uma hipótese de leitura, uma mera hipótese. Outro possível seria de pormenor, se nos focássemos, por exemplo, no ponto de fugo, no pormenor dos crânios cortados que surgem no lugar onde imaginamos o publico, na plateia, ou, eventualmente, o pessoal durante um ensaio: encenador, assistentes, técnicos, etc. O teatro é o motivo, por assim dizer, do díptico, mas está longe de encerrar o tema, será um mero ponto de partida para algo que o nosso olhar se encarregará de construir. Como em tudo, interessa-me qui a natureza anfíbia do objecto, a sua hibridez e como essa hibridez contribui para que o processo se mantenha vido, não se feche sobre si mesmo. A dificuldade que possamos sentir em entender esta imagem advém da dificuldade de conjugação sugerida pelos seus diferentes elementos. Em aparência, o lado esquerdo nada tem que ver com o lado direito. Mas múltiplas associações são passíveis de se estabelecer, assim estejamos dispostos para pensar os frames ou fragmentos separadamente e conjuntamente.  

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