Saltar da cama com queixas sobre o tempo, não o dos termómetros,
antes o dos cronómetros. Aquela sensação de não nos sobrar tempo para nada do
que julgamos essencial, como, por exemplo, arrumar papéis, queimar papéis,
amarrotar papéis, os papéis que nos vimos obrigados a desempenhar quotidianamente
para plateias adormecidas. Então digo: preciso de tempo para maturar ideias,
para pensar, para reflectir. E o espelho devolve-me exactamente o que acabei de
dizer como a um eco. Falamos para o vazio, citamos os gregos que elogiavam o
ócio contra a preguiça atávica, o ócio que lhes permitia chegar a conclusões
tão definitivas como a de que estar vivo é o contrário de estar morto.
Queixo-me, salto d’O Livro Azul para O Livro Castanho, marco no Excel os dias
já passados, olha para o que aí vem, meto as mãos à cabeça, tanto que fazer,
meu Deus, como vou conseguir oferecer ao corpo as caminhadas do pensamento? Não
fossem precisos pão e vinho sobre a mesa, ficaríamos a sós com o mundo nisso de
senti-lo pensando-o, pensá-lo sentindo-o. Mas há os telefonemas, os emails, os
projectos, os deveres, as obrigações, os planos, as planificações, há as datas,
as deadlines, as calendarizações, toda essa tralha que nos traz atrelados.
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