domingo, 11 de janeiro de 2026

DEADLINE

 
Saltar da cama com queixas sobre o tempo, não o dos termómetros, antes o dos cronómetros. Aquela sensação de não nos sobrar tempo para nada do que julgamos essencial, como, por exemplo, arrumar papéis, queimar papéis, amarrotar papéis, os papéis que nos vimos obrigados a desempenhar quotidianamente para plateias adormecidas. Então digo: preciso de tempo para maturar ideias, para pensar, para reflectir. E o espelho devolve-me exactamente o que acabei de dizer como a um eco. Falamos para o vazio, citamos os gregos que elogiavam o ócio contra a preguiça atávica, o ócio que lhes permitia chegar a conclusões tão definitivas como a de que estar vivo é o contrário de estar morto. Queixo-me, salto d’O Livro Azul para O Livro Castanho, marco no Excel os dias já passados, olha para o que aí vem, meto as mãos à cabeça, tanto que fazer, meu Deus, como vou conseguir oferecer ao corpo as caminhadas do pensamento? Não fossem precisos pão e vinho sobre a mesa, ficaríamos a sós com o mundo nisso de senti-lo pensando-o, pensá-lo sentindo-o. Mas há os telefonemas, os emails, os projectos, os deveres, as obrigações, os planos, as planificações, há as datas, as deadlines, as calendarizações, toda essa tralha que nos traz atrelados.

Sem comentários: