quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

ACERCA DO TEATRO QUOTIDIANO

 


Vós, ó artistas que fazeis teatro
Em salas enormes, sob sóis artificiais de luz,
Perante uma multidão silenciosa, procurai, uma vez por outra,
O teatro que acontece em plena rua.
O teatro quotidiano, multímodo e anónimo,
Mas bem vivo e terreno, que se alimenta
Do convívio dos homens e acontece em plena rua.
Eis que a vizinha imita o senhorio e mostra
Com precisão, reproduzindo a sua loquacidade,
Como ele intenta desviar a conversa,
Desviá-la da canalização da água que rebentou!
Nos jardins públicos, os rapazes mostram, à noite,
As raparigas, que riem veladamente, a forma como elas,
Por um lado, se defendem e, por outro, põem à mostra, hábeis, os seios.
E aquele bêbado imita o padre a dizer a prédica e a remeter
Os desprotegidos da fortuna para as férteis campinas do Paraíso.
Como é útil, sério e divertido um teatro assim,
E que digno! Não se trata de papagaios nem de símios,
A imitarem por amor da imitação, indiferentes 
Ao que imitam, só para mostrar que sabem imitar bem, 
Trata-se de pessoas com um propósito bem determinado.
Vós, que sois grandes artistas, imitadores magistrais,
Não queirais ficar atrás deles! Não vos afasteis muito,
Por mais que aperfeiçoeis a vossa arte,
Desse teatro do dia-a-dia que
Acontece em plena rua.
Vede, aquele homem, além à esquina! Está a mostrar
Como se passou o desastre. Está a expor
O motorista à crítica da multidão. Mostra como ele ia sentado
Ao volante; mas eis que imita, agora, o sinistrado,
simulando um velho. De ambos revela, apenas,
O suficiente para tornar o desastre compreensível, o suficiente
Para fazê-los surgir perante os nossos olhos. No entanto,
Do modo como no-los mostra não lhes seria impossível escaparem-se ao desastre.
O desastre torna-se, assim, compreensível e incompreensível,
Pois ambos poderiam ter executado movimentos completamente diversos;
E eis que mostra como poderiam ter sido
Esses movimentos para que o acidente não ocorresse. Não há
Superstição alguma, nesta testemunha ocular,
Mas, sim, aos seus erros.
Reparai, também,
Na circunspecção e no escrúpulo com que imita. Ele
Sabe quanto depende da sua exactidão: se o inocente
Escapa à condenação, se a vítima será indemnizada. Vede,
Repete agora o que já fez antes. Rectifica isto ou aquilo,
Hesitante, chamando a memória em seu auxílio, inseguro
De estar a imitar devidamente, detendo-se
E solicitando auxílio a mais alguém. Observai tudo isto
Com respeito!
Com espanto
Reparai como este imitador
Se não perde nunca na sua imitação. Jamais se transforma
Por inteiro no objecto da sua imitação. Permanece sempre como
O sujeito que mostra que não está implicado no caso. A pessoa
Imitada não lhe revelou os seus segredos,
Não partilhou com ele nem os seus sentimentos
Nem as suas ideias. Dela
Pouco sabe. Não encontramos na sua imitação uma terceira personagem,
Uma fusão de elementos seus e do outro,
Ou, porventura, constituída por ambos, em que bata um único coração
E um cérebro funcione.
O sujeito que faz a descrição,
Com o auxílio de todos os seus sentidos, 
Descreve o próximo que lhe é alheio.
Nem a misteriosa metamorfose
Que se desenrola, ao que consta, nos vossos teatros
Entre os camarins e o palco - um actor que sai do camarim, 
Um rei que pisa a cena -, feitiço
De que tantas vezes já vi rir (à mesa da cervejaria)
Os assistentes de cena, se verificam, aqui, na rua.
O nosso imitador à esquina da rua
Não é um sonâmbulo que não convém interpelarmos. Tão-pouco
Será um sacerdote magno no culto da divindade. Em qualquer altura
O podeis interromper; ele responder-vos-á calmamente
E prosseguirá a sua representação,
Uma vez finda a conversa.

(...)

Bertolt Brecht, in Estudos Sobre Teatro, tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, Portugália, s/d, 265-268.

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