ALGO OU ALGUÉM (retomando) Desde criança, Marcelo sempre gostou de contar e ouvir histórias. Era a sua parte favorita de conhecer outras pessoas. Que histórias teria para ouvir e descobrir daquela pessoa que estava a começar a conhecer? E como reagiria essa pessoa às suas histórias? Mas começou a perceber que este entusiasmo não era partilhado consigo. As pessoas gostavam de contar as suas histórias, mas nem sempre de ouvir as que MArcelo tinha para contar. Além disso, Marcelo também foi progressivamente reparando num padrão, e notou que, em situações de stress e ansiedade, as pessoas iam sempre ter consigo e desabafavam. E parecia que era o único momento em que se interessavam por ele. Foi num desses dias, enquanto ouvia a história de um recém-conhecido, que um pensamento assolou Marcelo: «Eu sou um candelabro humano.» E esta conclusão deixou-o apavorado e a sentir-se profundamente sozinho. «Eu estou aqui, pronto para ajudar e cuidar des outres, mas sem nunca me perguntarem como estou e o que sinto. Então, só posso ser um candelabro, e a minha função é iluminar a vida das outras pessoas, fazendo algo muito simples - apenas escutar.» Nesse silêncio, e sem a possibilidade de expor às outras pessoas aquilo que sentia e pensava, issos eria algo que ficaria para sempre dentro dele e que um dia o poderia entupir e ter consequências devastadoras; mas, até lá, ele iria apenas escutar. Isso faria com que deixasse de existir? «Se eu sinto, penso, mas não comunico nem mostro nada disto a ninguém. Será que isso significa que deixo de existir?»
Mário Coelho, da peça Tulpa, in PANOS - Palcos Novos Palavras Novas, Teatro Nacional D. Maria II, 2025, p. 59.

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