sábado, 7 de março de 2026

AS SINOPSES DAS VÍSCERAS

 
Desaparece um escritor dito maior e lá aparece um desfile de patos e de galinhas nas exéquias, a cacarejarem e grasnarem os maiores disparates. Aposto o tomate esquerdo em como não leram um único livro do defunto, nem aquele que convida o Tony no dia da família, nem o outro que cambaleia pelas ruas, nem aquela que coisa. De resto, o dito maior há muito que não tinha leitores. Quero dizer, tinha os que tinha, mas as vendas haviam decrescido nos últimos anos consideravelmente. Vai agora regressar aos tops, por certo empurrado pela morte e o voo das campanhas necrófagas. Foi assim com a Santa Agustina, assim será com o Santo Antunes e outros lhe seguirão. Lembro-me que nos últimos anos, mais ou menos a partir de "Sôbolos Rios Que Vão" (2010), as devoluções eram consideráveis. No Natal, lá marchavam algumas remessas. Ficava bem oferecer um livro do Lobo, desde que não uivasse para inquietação das almas. Os títulos eram difíceis - "Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera" (2016), "Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água" (2017) -, pelo que os putativos leitores pediam o último Lobo Antunes e pronto, quando pediam. Tantas vezes nem nome de autor, quando mais o barroquismo dos títulos. Aquele que é candidato ao Nobel, diziam. Enfim, a distância entre as palmas e o coração é sempre um fosso imenso onde a inteligência em queda espera não se estatelar. "Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo.", disse o dos Negócios Estrangeiros. E eu a desesperar por um jornalista, um único, que lhes perguntasse uma coisa tão simples como: qual o livro dele que aconselha e porquê?

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