quinta-feira, 26 de março de 2026

DAQUI NINGUÉM SAI MORTO

Não há como escapar a “Daqui Ninguém Sai Vivo”, segundo volume da colecção Rei Lagarto, da Assírio & Alvim, onde pela primeira vez dei com os nomes de Friedrich Nietzsche, Arthur Rimbaud, Kerouac, Ginsberg, Ferlinghetti, Gregory Corso, James Joyce, Molière, Whitman, Baudelaire, Dylan Thomas... “Aurora”, de Nietzsche, numa edição manhosa da RÉS, haveria de mudar-me a vida tornando evidentes as potencialidades do aforismo, a força dessa escrita que acompanha o ritmo do pensamento na denúncia de uma pobre humanidade espartilhada pela moral cristã. A descoberta de Nietzsche foi não só a descoberta de um pensador, mas também a descoberta de um músico e, com isso, a de alguém que pensava a música, que pensava o mundo a partir da arte, da música, da tragédia.
   The Doors introduziram-me no universo do jovem James Douglas Morrison e, através dele, cheguei à filosofia do alemão que me pôs a ouvir Wagner e a ler tragédia grega: Ésquilo, Sófocles, Eurípedes. Mas também se abriram as portas para outros universos, como o da Geração Beat que os The The lembraram e popularizaram numa extraordinária letra sobre jovens massacrados por políticas retrógradas: “The Beat(en) Generation” (1989), «open your eyes, open your imagination.» Tão actual. Cabe aqui Kerouac, claro, o jazz das décadas de 40-50, o bebop e o hard bop mais tarde dedicadamente coleccionados, todo aquele ambiente de fusão entre a música e a palavra em recitais anárquicos, a dedicatória de Corso a Miles Davis: «O teu som é impecável...»
   As primeiras pedras estavam inauguradas, do rock ao jazz, do jazz à música clássica, através de um cantor que era poeta e de um filósofo que foi músico. Se a música me transportou até ao planeta dos livros, e já atravessaremos outras pontes, também desde cedo os livros me levaram à música proporcionando descobertas e aguçando a curiosidade. “Arte de Música” (1968), de Jorge de Sena, que comecei a ler bem cedo numa antologia que havia lá por casa, transformou-se numa espécie de catálogo. Lá pelo meio, as Variações Goldberg, que me acompanharam em repeat depois de as adquirir numa interpretação de Glenn Gould, pianista canadiano que murmurava enquanto tocava. “Genius Within: The Inner Life of Glenn Gould”, documentário dirigido por Peter Raymont e Michèle Hozer, dá-nos conta da personalidade excêntrica dessa figura mítica.
   Tanto a ficção como a poesia ofereceram-me muita música, mais esta, talvez, pelo que concentrarei a revisitação apoiado na pulsação rítmica dos versos. Casos há, como nos escritores de canções, em que essa ancestral tradição de proporcionar encontros entre a palavra e o som nutriram a alma como poucos outros alimentos. Sempre fui fã de escritores de canções e muitos deles deram-me a conhecer livros, autores, literaturas, mas noutros encontrei uma espécie de balança equilibradíssima entre as artes literária e musical. Casos de Tom Waits, Leonard Cohen, Chico Buarque, Nick Cave... Ah, o poder inspirador das murder ballads. Mas também o trabalho de Angélique Ionatos sobre a poesia de Odysséas Elýtis, a exploração de Rimbaud através de Hector Zazou, a poesia de Giórgos Seféris pelos Sigmatropic.
  No caso português, o exemplo mais flagrante é José Afonso. Ainda hoje estou para perceber o que seria desse extraordinário poema “Era um Redondo Vocábulo”, escrito na prisão de Caxias, sem a melodia que o acompanha e, na mesma medida, o que seria da melodia sem aquelas palavras. Depois Sérgio Godinho, também ele tocado por Rimbaud, José Mário Branco a musicar Natália, Bertolt Brecht na voz de Jorge Palma, a magnífica Peregrinação de Fernão Mendes Pinto em “Por Este Rio Acima”, de Fausto. Não fui dos que estranharam a atribuição de um Nobel da Literatura a Bob Dylan, autor de canções pejadas de referências literárias. Pecou por tardio, este reconhecimento da canção como peça literária. Não começámos todos pelos cancioneiros?
   Nas suas crónicas, nomeadamente quando se refere à estadia nova-iorquina em casa de Ray Gooch e Chloe Kiel, Dylan fala-nos de livros, dos poetas que leu, das histórias de aventuras que apreciava. Edgar Rice Burroughs, o de Tarzan, chegou-nos pela sua mão, mas também os românticos ingleses, Byron, Shelley, e, claro está, Poe. Daí a Mary Shelley foi um pequeno passo. Ouvir Bob Dylan com atenção, identificar-lhe as referências, perscrutar as letras, procurar os livros, eis um exercício frutuoso.
   Mais recentemente, poetas como Levi Condinho, Joaquim M. Palma, Amadeu Baptista e José Ricardo Nunes, dedicaram especial atenção à música em livros tais como “Pequeno Roteiro Cego” (2019), “Vox Humana” (2024), “O Bosque Cintilante” (2008) e “Compositores do Período Barroco” (2013), desbravando caminho para diversas sonoridades com as quais os poemas mantêm relações dissemelhantes. Seja enquanto motivo, seja como ambiente, seja também através da desconstrução biográfica ou por outros dispositivos e metodologias, a paisagem sonora emerge nestes livros como uma companhia inalienável das palavras.  Em Al Berto, as evocações musicais eram tanto uma espécie de marca geracional como a declarada e exibida adopção de uma rota desviante, a da contra-cultura, como bem notou Manuel de Freitas no ensaio “A Noite dos Espelhos” - outro poeta em que as referências musicais são constantes.
   Muito mais haveria a dizer sobre esta trajectória que nos desloca das palavras para os sons, da literatura para a música, da música para a literatura, mas o trajecto inverso merece igualmente desenvolvimentos para além dos atalhos acima mencionados. Em 1988, uma canção de Leonard Cohen deu-me a conhecer o nome de Federico Garcia Lorca. “Take This Waltz” é a versão inglesa, musicada, do poema “Pequeño Vals Vienés”. E talvez o primeiro contacto com o nome Antonin Artaud se tenha dado através da canção dos Bauhaus com o mesmo nome. Por cá, merecem referência especial os Mão Morta, a mais literária das bandas portuguesas. “Müller no Hotel Hessischer Hof” (1997) levou o nome de Heiner Müller, poeta e dramaturgo alemão, onde ele nunca fora ouvido. “Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável” (1998) reavivou os nomes de Guy Debord, Raoul Vaneigem, entre outros situacionistas, a que devemos acrescentar as referências ao Conde de Lautréamont, de seu nome Isidore Lucien Ducasse, que percorrem a obra da banda nortenha.
   Deixando de lado discos, álbuns, peças musicais baseados ou escritos sobre obras literárias, que são inúmeros – alguns já aqui referidos -, poderíamos ainda sublinhar como nos domínios da Ópera o literário vai para a cama com o musical. Caso curioso é “Carmina Burana”, de Carl Orff, que nos deu a conhecer extraordinárias poesias medievais com uma componente satírica que levou à redescoberta dos domínios do escárnio e do maldizer, da pornografia e do cómico, relegados para segundíssimo plano pelo Index, mas altamente presentes e de uma riqueza incomparável na história de literatura europeia.
  Para o fim, fica propositadamente “Chatterton”, de Serge Gainsbourg”, um inventário que escolhi para epígrafe de “Suicidas”, livro publicado em 2013. Thomas Chatterton, poeta britânico, que se suicidou com apenas 17 anos por não aguentar o insucesso dos seus versos, deu nome à canção de Gainsbourg que introduz o meu périplo pelos escritores suicidas. Um livro polvilhado de referências musicais, diga-se de passagem, desde logo pelo modo como os ambientes sonoros serviram de fertilizante aos textos. «Contra a doença, prescrevo música», escrevo no texto patrocinado por Ángel Escobar Varela. A música como refúgio num mundo que nos agride.  Mas também em “Call Center” a música teve um papel fundamental, o que se nota, desde logo, nos títulos de algumas histórias: “Afterglow” (Loop), “Changes” (Black Sabbath), “Freak Sceane” (Dinosaur Jr.), “Guayaquil City” (Mano Negra), etc. Qual o papel da música nestes textos? Foi, talvez, a água lançada sobre a terra para que a semente do desespero brotasse e desse frutos. Creio que a música sempre teve esse papel na minha vida, não como um medicamento, não como um lenitivo, mas mesmo como água imprescindível à sobrevivência. Não sei se sobreviveria sem música. Se me imagino no deserto a morrer de sede, começo a trautear qualquer coisa para que pelo menos a lama não morra de sede. Não falem de deuses, nem dos que dancem, falem-me de música. E basta. 

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