sexta-feira, 27 de março de 2026

UM CANTO DE NUNO MOURA

 


I

Foi antes de existir Mirandela
tudo o que havia era 10 por 10 m2
mas ainda conseguíamos meter lá dentro
uma braçada da envergadura de uma lata
de feijão com meia dúzia de sábias petingas
e uma cama de cordel pendurada
em palitos de prata falsa
que dobravam ao primeiro pesadelo.

Ruiu o seminário onde me queria salvar
internar em banhos orais e espumas
de copos rasos
estava tudo na cara
ou na balança parada num mercado vazio.

Era dia de irmos todos ao dermatologista
tratar das borbulhas lilases nas nádegas
era, excesso de selim e suores
de rissóis de berbigão e algas de São
Martinho secas ao sol do areal
enquanto gravávamos os nossos nomes
nas boias de salvação.

Cada pessoa terá a sua
voltaremos a viver na água
talvez pensem em boias tamanho familiar
um rendilhado facilmente apontado a partir
de qualquer estação espacial com varanda.

A Terra parecia um palácio subaquático
mas menor que o meu pavilhão, o 41
ali no início de todos os tapetes vermelhos
e de todas as avenidas que um dia alcançarão
Palatino.

Com a subida das águas como poderei
continuar a enviar rapazes com uma bola
e um sumol para ringues de piso imperial
em aldeias desaparecidas?

Para cada boia o cemitério do seu ocupante.

Logo surgirá o negócio da boia desocupada
a sua posse, a sua venda, o seu aluguer
em pouco tempo esqueceremos canalizações
nomes de países, ter que levar o cão à rua
ou mesmo respirar dentro de confusões
flanquearemos botes, abordaremos navios
para fazer churrascadas, maldades
pois haverá o mar de uns e o mar de outros
os salgados e os doces
os vikings contra as torres
as pulgas contra as antenas.

Milhões de boias contra milhões de barcos
boias de onde admiraremos, dia e noite
o vaivém do abastecimento das naves em órbita
e o tom esverdeado que se instalará na nossa pele.

Não será pela memória das ondas infantis
da terra estreita
será o reflexo da nossa condição social
uns mais cinzentos, outros mais roxos
tostados, e novas profissões florescerão
timoneiros da ondulação
professores de perna cruzada com obstáculo
terapeutas de uma nova sincronia
mergulho beirinho
boias glovo emergidas dos grandes navios
boias express para fugas de ar e desinchos
boias recolectoras após as mandíbulas 
que vêm de baixo alimentarem a lua com alguns
complacentes que ainda pescavam peixe com pão

Livros plastificados nas catacumbas
de um velho torpedeiro recuperado
nos estaleiros de Viana 
quando nos chegará um exemplar?

Até o medo de encontrar repentinamente
o filho do senhorio de braço dado
com a mãe se foi. 

Nuno Moura, in Cantos, do Canto XI, Hora de Afundar, 11 Andamentos, Douda Correria, Outubro de 2024, pp. 271-273.

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