MENSTRUAÇÃO
Não me lembro exactamente do momento
(também não encontro o meu tabaco)
em que comecei a fluir com o mundo
mas menstruada aos treze
passei de um império para o outro
levada pela mão sólida do amor calmo da minha mãe
devia ser proibido mudar de mão
de corpo, de roupa, de planeta
mas não houve tempo para mais infância
foi ali mesmo no registo civil do asfalto
que se desmanchou num fio de sangue
a teologia natural, o caminho bem desenhado
entre as coxas e a vulva rosicler
assim mesmo no mês de Agosto desci à terra
sem querer,
sem saber de todas as camas, todos os quartos
todas as noites em que prática e mortal
me deito sobre a donzela
para num magoamento risonho murmurar
já não sou uma cidadã dos céus.
Raquel Nobre Guerra, in Postes de Luz para Cães Vadios, Edições Tinta-da-China, Março de 2026, p. 72.

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