quinta-feira, 23 de abril de 2026

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS # 40

 


Temos tempo, o futuro há-de chegar, está sempre a chegar, pelo que não valerá a pena acelerar no relógio as horas que do outro lado do horizonte aguardam por nós. Todavia, aconteceu ler há dias no livro de um autor português que em 2060 teremos de ir ao dicionário procurar o significado da palavra “escritor”. Será? O mundo está a mudar rapidamente. Por mundo entendemos a vida dos homens na Terra. Os homens, capturados pela tecnologia, têm vindo a transformar-se por dentro e por fora, nas relações que estabelecem uns com outros e de si para si. Vocês sabem como é, saberão melhor do que eu como é, nasceram já com monitores no lugar de janelas. O esforço foi, desde cedo, fazer com que percebessem mais do que os olhos captam, indo ao encontro daquilo que vemos, tocando nas coisas, cheirando-as, mergulhando nelas se for o caso, para não ficarmos erradamente convencidos de que a realidade não tem textura e que os textos, por não terem textura, não têm realidade. Estes livros que vos deixo de herança são feitos de muitas realidades num tempo em que ainda não é preciso buscar o sentido da palavra escritor, embora já sintamos não faltar muito para que tal se verifique. Em 1953, terminada a Segunda Grande Guerra, a ameaça nuclear levava os homens à rua, obrigava-os a pensar no que seria se viesse a ser essa amostra de apocalipse experimentada no Japão. A imaginação, fértil como nada mais, produziu imensos futuros, uns plausíveis, outros menos, mas muitas vezes certeiros enquanto alegorias ou metáforas de um tempo que agora se encarrega de confirmar o que só a imaginação alvitrava. Em “Fahrenheit 451”, temperatura a que um livro se inflama e consome, Ray Bradbury imaginou um futuro sem livros, com bombeiros que em vez de apagarem fogos se encarregavam de ateá-los, fazendo como Savonarola fez no século XV com as suas fogueiras de vaidades. Nesse futuro imaginado pelo escritor norte-americano a alegria era obrigatória e os livros proibidos, pois os livros inspiram tristeza, melancolia, nostalgia, sentimentos e sensações prejudiciais ao comprazimento com a realidade. «O homem via, mas sem ver o que via o Olho.» Intoxicados com pílulas, comprimidos, sedativos, os homens eram protegidos por cães-robot, animais mecânicos que atacavam quando era necessário atacar, entretidos por clowns, preenchiam papéis vagos em peças de um parágrafo, ligavam-se aos monitores e tinham joke-boxes com que se divertir para que não doesse respirar. O entretenimento, como sabeis, distrai-nos e, por nos distrair, é tão querido de quem não nos quer atentos e vigilantes. Um homem, de seu nome Montag, terá percebido isso ao começar a recolher, pela calada, alguns livros destinados à fogueira, obras que o inquietavam e desassossegavam enquanto à sua volta discutir política resumia-se a considerações sobre o aspecto físico dos candidatos a um qualquer cargo. «Não temos necessidade de que nos deixem sossegados. Temos necessidade de sermos seriamente incomodados de vez em quando», dizia Montag à sua mulher. Mas ela não compreendia, era apenas mais uma individualidade subsumida nas massas que se encarregam de usurpar identidades modelando, uniformizando, regulando, em nome da «paz de espírito.» Montag descobriu por si a importância da desobediência, foi ela que o levou a encontrar outros homens, exilados dessa sociedade padronizada, que transportavam dentro de si livros inteiros, eram cada um deles um clássico completo, garantiam através da memória que as chamas não reduziriam o passado a cinzas. Talvez vos questioneis sobre as vantagens da memória neste tempo desmemoriado, tão negligente da história que abdica do exemplo passado na interpretação do facto presente. É que se o erro se nos apresenta vantajoso, já Descartes o dizia e Beckett corroborou, não menos vantajosa será a consciência do erro, a capacidade de aceitar a falha pelo entendimento que dela fazemos. Só os estúpidos não reconhecem que são estúpidos, certos que estão de tudo. É neste campo que a memória vinga: dando-nos a ver como foi para que compreendamos como é, de modo a que no futuro possa ser melhor. Temos tempo, o futuro há-de chegar.

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