Temos tempo, o futuro há-de chegar, está sempre a chegar,
pelo que não valerá a pena acelerar no relógio as horas que do outro lado do
horizonte aguardam por nós. Todavia, aconteceu ler há dias no livro de um autor
português que em 2060 teremos de ir ao dicionário procurar o significado da
palavra “escritor”. Será? O mundo está a mudar rapidamente. Por mundo
entendemos a vida dos homens na Terra. Os homens, capturados pela tecnologia,
têm vindo a transformar-se por dentro e por fora, nas relações que estabelecem
uns com outros e de si para si. Vocês sabem como é, saberão melhor do que eu
como é, nasceram já com monitores no lugar de janelas. O esforço foi, desde
cedo, fazer com que percebessem mais do que os olhos captam, indo ao encontro
daquilo que vemos, tocando nas coisas, cheirando-as, mergulhando nelas se for o
caso, para não ficarmos erradamente convencidos de que a realidade não tem
textura e que os textos, por não terem textura, não têm realidade. Estes livros
que vos deixo de herança são feitos de muitas realidades num tempo em que ainda
não é preciso buscar o sentido da palavra escritor, embora já sintamos não
faltar muito para que tal se verifique. Em 1953, terminada a Segunda Grande
Guerra, a ameaça nuclear levava os homens à rua, obrigava-os a pensar no que
seria se viesse a ser essa amostra de apocalipse experimentada no Japão. A
imaginação, fértil como nada mais, produziu imensos futuros, uns plausíveis, outros
menos, mas muitas vezes certeiros enquanto alegorias ou metáforas de um tempo
que agora se encarrega de confirmar o que só a imaginação alvitrava. Em “Fahrenheit
451”, temperatura a que um livro se inflama e consome, Ray Bradbury imaginou um
futuro sem livros, com bombeiros que em vez de apagarem fogos se encarregavam
de ateá-los, fazendo como Savonarola fez no século XV com as suas fogueiras de
vaidades. Nesse futuro imaginado pelo escritor norte-americano a alegria era
obrigatória e os livros proibidos, pois os livros inspiram tristeza,
melancolia, nostalgia, sentimentos e sensações prejudiciais ao comprazimento
com a realidade. «O homem via, mas sem ver o que via o Olho.» Intoxicados com
pílulas, comprimidos, sedativos, os homens eram protegidos por cães-robot,
animais mecânicos que atacavam quando era necessário atacar, entretidos por
clowns, preenchiam papéis vagos em peças de um parágrafo, ligavam-se aos
monitores e tinham joke-boxes com que se divertir para que não doesse respirar.
O entretenimento, como sabeis, distrai-nos e, por nos distrair, é tão querido
de quem não nos quer atentos e vigilantes. Um homem, de seu nome Montag, terá
percebido isso ao começar a recolher, pela calada, alguns livros destinados à fogueira,
obras que o inquietavam e desassossegavam enquanto à sua volta discutir
política resumia-se a considerações sobre o aspecto físico dos candidatos a um
qualquer cargo. «Não temos necessidade de que nos deixem sossegados. Temos
necessidade de sermos seriamente incomodados de vez em quando», dizia Montag à
sua mulher. Mas ela não compreendia, era apenas mais uma individualidade
subsumida nas massas que se encarregam de usurpar identidades modelando,
uniformizando, regulando, em nome da «paz de espírito.» Montag descobriu por si
a importância da desobediência, foi ela que o levou a encontrar outros homens,
exilados dessa sociedade padronizada, que transportavam dentro de si livros
inteiros, eram cada um deles um clássico completo, garantiam através da memória
que as chamas não reduziriam o passado a cinzas. Talvez vos questioneis sobre
as vantagens da memória neste tempo desmemoriado, tão negligente da história
que abdica do exemplo passado na interpretação do facto presente. É que se o
erro se nos apresenta vantajoso, já Descartes o dizia e Beckett corroborou, não
menos vantajosa será a consciência do erro, a capacidade de aceitar a falha
pelo entendimento que dela fazemos. Só os estúpidos não reconhecem que são
estúpidos, certos que estão de tudo. É neste campo que a memória vinga:
dando-nos a ver como foi para que compreendamos como é, de modo a que no futuro
possa ser melhor. Temos tempo, o futuro há-de chegar.

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