segunda-feira, 13 de abril de 2026

ANÓDINO

 
Despertado pelo raiar dos motores, Dr. Anódino sentou-se na cama, calçou as pantufas, ergueu-se, correu os estores, mirou o clima e, ao soltar um bocejo involuntário, apressou-se a tapar a boca não fosse alguém vê-lo naqueles modos impróprios de opinião instintiva. Dirigiu-se à casa de banho, baixou as calças, sentou-se na sanita e afrouxou uma bufa contraindo o esfíncter antes de libertar a primeira bolota de fezes. Contraiu bastante, não fosse alguém ouvi-lo naqueles preparos escatológicos. Apesar de viver sem companhia, sempre lhe pareciam as paredes demasiado permeáveis a todo o tipo de sonoridades. Há que estar precavido contra a indiscrição das paredes, pensava. E, depois de pensar, higienizava o sulco interglúteo, antes de se erguer, puxar as calças acima do umbigo, descarregar o autoclismo e aclarar a bacia com o piaçaba. Tinha agora o primeiro dilema do dia a carecer de resolução. Limpada a bacia, reparara em restos de porcaria na escova do piaçaba. O Dr. Anódino cogitou a melhor solução para o seu problema. Esperou que o autoclismo voltasse a encher e descarregou-o uma segunda vez, esperançado que uma segunda descarga expurgasse a escova conspurcada. Infelizmente tal não sucedeu, pelo que não restou ao Dr. Anódino outra hipótese senão ligar o chuveiro e higienizar o piaçaba após consistentes borrifadelas com detergente lava-tudo. Resolvido o dilema, espalhou do mesmo detergente pela base do duche e ligou o chuveiro no máximo para que a base ficasse impecavelmente desinfectada. Finalmente podia lavar os dentes, o que fez antes de entrar no duche e ensaboar o corpo, esfregando bem sovacos, virilhas e espaços interdigitais podais. Aplicou menos intensidade na glande, não fosse alguém entrar de rompante dando com ele a esfregar o pénis. Uma pessoa nunca sabe e o Dr. Anódino era adepto do mais vale prevenir do que remediar. Terminado o duche, secou-se com um toalhão turco, perfumou-se com desodorizante, vestiu-se, calçou-se e só não se penteou porque era careca. Pegou na carteira, no porta-chaves, correu os estores, saiu de casa, não sem antes se certificar de que todas as luzes haviam sido apagadas. O Dr. Anódino preferia o adjectivo plural feminino apagadas ao congénere desligadas. Há que poupar energia, repetia tantas vezes o Dr. Anódino de si para consigo. Ao abandonar o lar, isto é, ao sair de casa, que o lar era parte integrante do Dr. Anódino, nunca o abandonava, cumprimentou com acenos e deu deferentes bons dias a todos os vizinhos com quem se cruzou. Incluindo o gato Trivilhão do vizinhe três cabeças. Repetiu a mesma cordialidade ao entrar no café, ao dirigir-se ao balcão, ao afastar um pires com migalhas e guardanapos de papel amarrotados, ao solicitar um abatanado e meia torrada, ao pagar a conta, ao afastar-se a caminho do trabalho. Fez todo o percurso dividindo o olhar entre o que lhe aparecia pela frente e o chão que pisava, minado de armadilhas diversas tais como restos de lixo humano e dejectos animais. Serviu-se da ponta do nariz adunco como quem se serve de uma bússola. Já uma vez lhe acontecera pisar bosta de cão, foi uma aventura que não pretendia repetir. Até porque não tinha feitio aventureiro. Felizmente, desta feita, nada de inusitado aconteceu. Chegou ao local de trabalho e continuou a distribuir simpatia até ao fim de turno, com pausa para almoço na companhia de um pão sem sal. Foi cumpridor, exemplar, o preferido do patrão com quem nunca ousava a mais pequena discordância. E nestes sucessivos cumprimentos japoneses, a vida corria-lhe como leitos inócuos na direcção de marés inofensivas. A rotina repetia-se e cada novo dia era uma mudança, uma transformação, uma deslocação, uma modificação, uma alteração, uma trasladação para mais do mesmo.

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