Despertado pelo raiar dos motores, Dr. Anódino sentou-se
na cama, calçou as pantufas, ergueu-se, correu os estores, mirou o clima e, ao
soltar um bocejo involuntário, apressou-se a tapar a boca não fosse alguém
vê-lo naqueles modos impróprios de opinião instintiva. Dirigiu-se à casa de
banho, baixou as calças, sentou-se na sanita e afrouxou uma bufa contraindo o
esfíncter antes de libertar a primeira bolota de fezes. Contraiu bastante, não
fosse alguém ouvi-lo naqueles preparos escatológicos. Apesar de viver sem
companhia, sempre lhe pareciam as paredes demasiado permeáveis a todo o tipo de
sonoridades. Há que estar precavido contra a indiscrição das paredes, pensava.
E, depois de pensar, higienizava o sulco interglúteo, antes de se erguer, puxar
as calças acima do umbigo, descarregar o autoclismo e aclarar a bacia com o
piaçaba. Tinha agora o primeiro dilema do dia a carecer de resolução. Limpada a
bacia, reparara em restos de porcaria na escova do piaçaba. O Dr. Anódino
cogitou a melhor solução para o seu problema. Esperou que o autoclismo voltasse
a encher e descarregou-o uma segunda vez, esperançado que uma segunda descarga
expurgasse a escova conspurcada. Infelizmente tal não sucedeu, pelo que não
restou ao Dr. Anódino outra hipótese senão ligar o chuveiro e higienizar o
piaçaba após consistentes borrifadelas com detergente lava-tudo. Resolvido o
dilema, espalhou do mesmo detergente pela base do duche e ligou o chuveiro no
máximo para que a base ficasse impecavelmente desinfectada. Finalmente podia
lavar os dentes, o que fez antes de entrar no duche e ensaboar o corpo,
esfregando bem sovacos, virilhas e espaços interdigitais podais. Aplicou menos
intensidade na glande, não fosse alguém entrar de rompante dando com ele a
esfregar o pénis. Uma pessoa nunca sabe e o Dr. Anódino era adepto do mais vale
prevenir do que remediar. Terminado o duche, secou-se com um toalhão turco,
perfumou-se com desodorizante, vestiu-se, calçou-se e só não se penteou porque
era careca. Pegou na carteira, no porta-chaves, correu os estores, saiu de
casa, não sem antes se certificar de que todas as luzes haviam sido apagadas. O
Dr. Anódino preferia o adjectivo plural feminino apagadas ao congénere
desligadas. Há que poupar energia, repetia tantas vezes o Dr. Anódino de si
para consigo. Ao abandonar o lar, isto é, ao sair de casa, que o lar era parte
integrante do Dr. Anódino, nunca o abandonava, cumprimentou com acenos e deu
deferentes bons dias a todos os vizinhos com quem se cruzou. Incluindo o gato
Trivilhão do vizinhe três cabeças. Repetiu a mesma cordialidade ao entrar no
café, ao dirigir-se ao balcão, ao afastar um pires com migalhas e guardanapos
de papel amarrotados, ao solicitar um abatanado e meia torrada, ao pagar a
conta, ao afastar-se a caminho do trabalho. Fez todo o percurso dividindo o
olhar entre o que lhe aparecia pela frente e o chão que pisava, minado de
armadilhas diversas tais como restos de lixo humano e dejectos animais.
Serviu-se da ponta do nariz adunco como quem se serve de uma bússola. Já uma
vez lhe acontecera pisar bosta de cão, foi uma aventura que não pretendia
repetir. Até porque não tinha feitio aventureiro. Felizmente, desta feita, nada
de inusitado aconteceu. Chegou ao local de trabalho e continuou a distribuir
simpatia até ao fim de turno, com pausa para almoço na companhia de um pão sem
sal. Foi cumpridor, exemplar, o preferido do patrão com quem nunca ousava a
mais pequena discordância. E nestes sucessivos cumprimentos japoneses, a vida
corria-lhe como leitos inócuos na direcção de marés inofensivas. A rotina
repetia-se e cada novo dia era uma mudança, uma transformação, uma deslocação,
uma modificação, uma alteração, uma trasladação para mais do mesmo.
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