Esta noite sonhei que era um gato cheio de fome, tinha
tanta fome que perdi o medo da água e mergulhei no mar para caçar um peixe.
Acontece que em vez de caçar fui caçado, ou seja, eu-gato fui comido por um
peixe. Passei a ser um peixe-gato escondido com rabo de fora que miava a cada
vez que abria a boca. A minha respiração era agora um miado, mas um miado muito
especial que não se ouvia no mundo do silêncio. Eu ouvia-me miar, mas mais
ninguém me ouvia. Então, enquanto percorria os sete mares e outros tantos
oceanos, com o rabo a dar a dar e um miado inaudível, acabei por ser pescado,
imagine-se, pela Gisela João, que estava sentada à beira de um rio a pescar
peixe fado, um género de peixe de que nunca ouvi falar mas que, no meu sonho,
era muito saboroso. Depois de morder o anzol e de ser sacado da água pela
Gisela, fui parar a um balde. Ela não notou logo no meu rabo peludo em vez da
cauda escamosa, mas quando comecei a miar e fui finalmente ouvido a Gisela João
espantou-se verdadeiramente. Olhou incrédula para dentro do balde, pegou em mim
com imensa ternura, as lágrimas vieram-lhe ao rosto, apertou-me contra o seu
peito, produzindo sensações oníricas deveras agradáveis, e adoptou-me como a um
gatinho de estimação. Só que eu era um peixe, apesar de também ser um gato,
pelo que a fadista transportava-me dentro de uma mala-aquário transparente que,
de quando em vez, abria para se ouvir o meu miado como quem escuta um fado.
Assim nasceu um novo género de fado, o fado miado, de que a Gisela João era a
mais digna representante, ganhando prémios Play, Grammys e cenas assim. Acordei
ao colo da Gisela, embalado por um fado miado que dizia: "Outrora fui um
gato comido por um peixe, agora mio um fado a caminho de Odeceixe".
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