quinta-feira, 30 de abril de 2026

FADO MIADO

 
Esta noite sonhei que era um gato cheio de fome, tinha tanta fome que perdi o medo da água e mergulhei no mar para caçar um peixe. Acontece que em vez de caçar fui caçado, ou seja, eu-gato fui comido por um peixe. Passei a ser um peixe-gato escondido com rabo de fora que miava a cada vez que abria a boca. A minha respiração era agora um miado, mas um miado muito especial que não se ouvia no mundo do silêncio. Eu ouvia-me miar, mas mais ninguém me ouvia. Então, enquanto percorria os sete mares e outros tantos oceanos, com o rabo a dar a dar e um miado inaudível, acabei por ser pescado, imagine-se, pela Gisela João, que estava sentada à beira de um rio a pescar peixe fado, um género de peixe de que nunca ouvi falar mas que, no meu sonho, era muito saboroso. Depois de morder o anzol e de ser sacado da água pela Gisela, fui parar a um balde. Ela não notou logo no meu rabo peludo em vez da cauda escamosa, mas quando comecei a miar e fui finalmente ouvido a Gisela João espantou-se verdadeiramente. Olhou incrédula para dentro do balde, pegou em mim com imensa ternura, as lágrimas vieram-lhe ao rosto, apertou-me contra o seu peito, produzindo sensações oníricas deveras agradáveis, e adoptou-me como a um gatinho de estimação. Só que eu era um peixe, apesar de também ser um gato, pelo que a fadista transportava-me dentro de uma mala-aquário transparente que, de quando em vez, abria para se ouvir o meu miado como quem escuta um fado. Assim nasceu um novo género de fado, o fado miado, de que a Gisela João era a mais digna representante, ganhando prémios Play, Grammys e cenas assim. Acordei ao colo da Gisela, embalado por um fado miado que dizia: "Outrora fui um gato comido por um peixe, agora mio um fado a caminho de Odeceixe".

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