domingo, 31 de maio de 2026

UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD

 


VÉNUS ANADIÓMENA

Como de um verde caixão de lata, a cabeça
De uma mulher, cabelo castanho e pastoso,
Lenta e estulta, emerge de uma velha banheira,
Cheia de deformidades mal disfarçadas;

Depois a farta nuca, as grandes omoplatas
Saídas; as costas cheias de reentrâncias;
E os bolbos dos rins, que parecem descolar;
Sob a pele, a banha surge em lisas camadas;

Um tanto vermelha, a espinha, e o todo liberta,
Que estranho, um cheiro horrível; vê-se sobretudo
Singularidades que requerem a lupa...

Nas nalgas, dois nomes gravados: Clara Venus;
- E toda em requebros alça e larga garupa
E expõe, bela e medonha, uma chaga no ânus.

27 de Julho de 1870

Arthur Rimbaud, in Poesia, tradução e notas de João Moita, prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Assírio & Alvim, Setembro de 2025, p. 61.

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