domingo, 3 de maio de 2026

UM POEMA DE INÊS FRANCISCO JACOB

 


32.

marinheiro de água
turva
fecha a fronteira
quando amanhas o peixe
passando-o por seiva tépida
e as tuas rugas
cobertas de sarro e escamas
deixam o cálice pendu
rado para amanhã
como fazes igual com a âncora
e as amantes
que esculpes em barro tosco
nesses grotescos dedinhos teus

sinal de falta de vitamina e muita
lama
parda e perdida

estômago duro de roer
o teu
marinheiro de água-mel

embacias os dentes com o teu açúcar
mentiroso

restar-te-á um mar de cáries
e um par de cornos

Inês Francisco Jacob, in Maremorto, Alambique, Novembro de 2021, p. 40.

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