quarta-feira, 17 de junho de 2026

CORRIDA DE GALGOS

 
Esta noite sonhei que estava a assistir a uma grande corrida de galgos, caninos de perna longa e esguia, treinados para serem os melhores, altamente competitivos, autênticas máquinas de eficácia. O tiro soou, as portas abriram e os galgos desataram numa correria ávida e desenfreada atrás de um coelho, um coelho verdadeiro. Acontece que o láparo reparou num campo de cenouras ali ao lado. Parou, esgaravatou e começou a roer uma cenoura. Os galgos quedaram incrédulos, pretendiam competir, era preciso que o coelho corresse, mas o coelho estava mais interessado nas cenouras. Os galgos não corriam atrás do coelho para o caçar, corriam atrás do coelho para serem os primeiros a ultrapassar a meta, a ganhar medalhas para satisfação dos donos, e agora aquilo, um coelho que não corria, um coelho que os impedia de serem geniais. Sob protesto geral, lá se arranjou um coelho mecânico para que os galgos pudessem ser magníficos, excepcionais, os melhores. Eu ria, ria, ria imenso a observar o coelho verdadeiro, refastelado no campo de cenouras enquanto os totós dos galgos se esforçavam para alcançar o coelho mecânico. Já só queria saber do coelho verdadeiro, o papa-cenouras, desinteressei-me dos galgos, era cansativo olhar para eles a correrem com a língua de fora até caírem para o lado de cansaço. Acordei com uma barrigada de riso, uma dor nada onírica, de facto real, de um riso alaranjado de cenoura mascada.

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