Esta noite sonhei que estava a assistir a uma grande
corrida de galgos, caninos de perna longa e esguia, treinados para serem os
melhores, altamente competitivos, autênticas máquinas de eficácia. O tiro soou,
as portas abriram e os galgos desataram numa correria ávida e desenfreada atrás
de um coelho, um coelho verdadeiro. Acontece que o láparo reparou num campo de
cenouras ali ao lado. Parou, esgaravatou e começou a roer uma cenoura. Os
galgos quedaram incrédulos, pretendiam competir, era preciso que o coelho
corresse, mas o coelho estava mais interessado nas cenouras. Os galgos não
corriam atrás do coelho para o caçar, corriam atrás do coelho para serem os
primeiros a ultrapassar a meta, a ganhar medalhas para satisfação dos donos, e
agora aquilo, um coelho que não corria, um coelho que os impedia de serem
geniais. Sob protesto geral, lá se arranjou um coelho mecânico para que os
galgos pudessem ser magníficos, excepcionais, os melhores. Eu ria, ria, ria
imenso a observar o coelho verdadeiro, refastelado no campo de cenouras
enquanto os totós dos galgos se esforçavam para alcançar o coelho mecânico. Já
só queria saber do coelho verdadeiro, o papa-cenouras, desinteressei-me dos
galgos, era cansativo olhar para eles a correrem com a língua de fora até
caírem para o lado de cansaço. Acordei com uma barrigada de riso, uma dor nada
onírica, de facto real, de um riso alaranjado de cenoura mascada.
Sem comentários:
Enviar um comentário