sábado, 13 de junho de 2026

O ARTISTA

O artista, a artista, o espectáculo, puta de palavra que me irrita cada vez mais, a pose, a fotografia, a entrevista, o nome, em gordas, please, li no Pontalis que os livros deviam ser todos publicados sem nome de autor, cita alguém, não me lembro de quem, fica ideia sem nome, são as melhores, porque, ai, o autor, os autores, páginas e mais páginas cheias deles, com fotografias, muitas, imensas, inúmeras fotografias, e letras garrafais, e lantejoulas, e néones, e palmas, claro, muitas palmas, bravos e bravíssimos lançados com perdigotos na direcção do proscénio, da mesa redonda, nunca esquecer que o bravo vem acompanhado de cuspo, a matéria sensível do escarro, bravos são escarretas, portanto aplausos, luzes, muitas luzes, cartazes, currículos, olhem para mim aqui, tão genial entre génios, ao pé de mim Homero nem homem foi, foi um erro, foi um homem erro, homerro, por corrupção ficou Homero, percebem, agora eu, eu assino, eu autografo, eu cá sou bom, tenho penas, levanto voo nas festas, nas feiras, nos festivais, sou um tapete voador com aladinos de pés chatos, pés de atleta comidos por vermes, sou um tapete voador onde limpar os pés, sou um colchão, alguém se deita em cima de mim e faz o amor ao ritmo das penas, são de pavão, de galaró, de capão, amor capão é que é, e eu a ler sozinho mais um Rimbaud Rembrandt enquanto van grogo girassóis domesticados, nunca ninguém perceberá que aquilo vem dos índios, foram os selvagens que domesticaram os girassóis, é preciso dizê-lo para que percebam e, em percebendo, fazem-se entendidos, mas ó miséria, nem a ponta do nariz conseguem tocar com a língua que dizem pátria, limpam os pés, descalçam-se à entrada, é triste, um desconsolo, valha-nos o silêncio da garrafa vazia que olha para nós no umbral da janela.

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