O artista, a artista, o espectáculo, puta de palavra que
me irrita cada vez mais, a pose, a fotografia, a entrevista, o nome, em gordas,
please, li no Pontalis que os livros deviam ser todos publicados sem nome de
autor, cita alguém, não me lembro de quem, fica ideia sem nome, são as
melhores, porque, ai, o autor, os autores, páginas e mais páginas cheias deles,
com fotografias, muitas, imensas, inúmeras fotografias, e letras garrafais, e
lantejoulas, e néones, e palmas, claro, muitas palmas, bravos e bravíssimos
lançados com perdigotos na direcção do proscénio, da mesa redonda, nunca
esquecer que o bravo vem acompanhado de cuspo, a matéria sensível do escarro,
bravos são escarretas, portanto aplausos, luzes, muitas luzes, cartazes,
currículos, olhem para mim aqui, tão genial entre génios, ao pé de mim Homero
nem homem foi, foi um erro, foi um homem erro, homerro, por corrupção ficou Homero,
percebem, agora eu, eu assino, eu autografo, eu cá sou bom, tenho penas,
levanto voo nas festas, nas feiras, nos festivais, sou um tapete voador com
aladinos de pés chatos, pés de atleta comidos por vermes, sou um tapete voador
onde limpar os pés, sou um colchão, alguém se deita em cima de mim e faz o amor
ao ritmo das penas, são de pavão, de galaró, de capão, amor capão é que é, e eu
a ler sozinho mais um Rimbaud Rembrandt enquanto van grogo girassóis
domesticados, nunca ninguém perceberá que aquilo vem dos índios, foram os
selvagens que domesticaram os girassóis, é preciso dizê-lo para que percebam e,
em percebendo, fazem-se entendidos, mas ó miséria, nem a ponta do nariz
conseguem tocar com a língua que dizem pátria, limpam os pés, descalçam-se à entrada,
é triste, um desconsolo, valha-nos o silêncio da garrafa vazia que olha para
nós no umbral da janela.
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