Escrever a partir de não é o mesmo que escrever como. Na música fala-se de cover, versão, e raramente o original é, por assim dizer, superado. A não ser que seja a base a partir da qual outra coisa nasça, algo em relação com que não é cópia de. Também na poesia os motes e as formas sugeriam variantes, versões, variações, tantas vezes confundidas com plágio. Hoje fala-se de intertextualidade, paráfrase, mas isso já pouco tem que ver com os modelos a partir dos quais, segundo determinadas regras, algo inovador desabrochava. Não se pode meter mel onde há vinagre. Na série American, Johnny Cash mostrou como se faz, assimilando originais que acolheu como seus para nos oferecer versões tantas vezes preferíveis ao ponto de partida. Canções dos U2, Depeche Mode, Nine Inch Nails conheceram novas formas de vida na sua voz, com arranjos minimalistas, em toada acústica, ao lado de baladas tradicionais como Mary of the Wild Moor. É uma lição que nos explica qualquer coisa de precioso, o modo como o outro encarna em nós, diálogo secreto entre essências aparentemente distantes a ponto de nos parecerem inconciliáveis. E, no entanto, aí estão as versões a dar conta de que o ponto de chegada está ao nível do ponto de partida, ou supera-o, quando o acolhemos não apenas por lhe tocarmos a pele, a superfície, mas por lhe chegarmos à alma, isto é, ao osso revestido de carne, músculo, veias, nervos. A vida de Cash deu origem a um belo filme, ele próprio foi actor, deu origem a novelas gráficas, vai dando origem a muita coisa por ser uma vida que diz muito a muita gente. Na série American ele mostrou-nos por que trilhos as almas se ligam. Estou a ouvir repetidamente a versão que fez da canção The Mercy Seat, de Nick Cave & The Bad Seeds, e a pensar como tudo seria mais honesto se não nos quiséssemos impor aos outros, antes aceitando-os como parte integrante de nós a partir do que nos liga, do que nos aproxima, dessa essência que define esta coisa chamada transitoriedade e que não carece, definitivamente, de mel onde existe vinagre.

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