segunda-feira, 31 de agosto de 2026

50 x 45

 


Lembro-me do Wim Mertens Ensemble em Setembro de 1996, Grande Auditório do CCB, de como me impressionou a interpretação de “No Testament”, do álbum “Motives for Writing” (1989). Não estive no concerto do São Luiz que originou o álbum “Epic That Neves Was” (1994), CD que ouvi incontáveis vezes. Tento recordar-me do caminho que me levou à música do compositor belga, mas não consigo. Talvez uma referência num jornal ou numa revista tenham atraído a minha atenção, talvez sugestão de um amigo (quem?), talvez através da rádio que me acompanhava nas noites mais solitárias dos anos 90. O primeiro CD adquirido foi “Educes Me” (1986), já no final da década que deu à luz o álbum de estreia: “For Amusement Only”. A obra é vasta e, ainda que frequentemente associada ao minimalismo, atravessa géneros diversos sem qualquer cristalização.  Uma das marcas características é a voz do próprio Mertens, usada como instrumento emissor de sons irredutíveis a um qualquer significado ou sentido semântico. É como se as palavras se libertassem do sentido que as espartilha e se tornassem apenas sons, pinceladas sonoras num espaço que a imaginação se encarrega de percepcionar sob a forma das mais diversas paisagens. Neste aspecto, aproxima-se do jazz, de algumas técnicas vocais do jazz, ainda que com propósitos não tão improvisáveis. São sons que parecem palavras convencionais, cantadas como tal, mas oferecendo-nos uma língua nova, deslumbrantemente misteriosa.

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