quinta-feira, 27 de agosto de 2026

AUTO DA PERSIGNAÇÃO

 

Um homem sem braços entra na Capela de Nossa Senhora dos Prazeres. A seu lado, uma auxiliar vai dizendo os apartes justificados à direita. Diante do altar, ajoelha-se o homem e persigna-se com a ponta do nariz, invocando a Santíssima Trindade:
 
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
aqui estamos, Senhor, por tua obra e desgraça
Graça.
Melhor fora que não estivéssemos
pois no estado em que nos encontramos
nem para dar descanso à comichão servimos
 
A auxiliar prepara o sermão, à laia de vira-páginas.
 
Já os antigos lamentavam:
Zeus pai, nenhum deus é mais destrutivo que tu.
Não sentes compaixão dos homens, apesar de os teres criado:
envolves-nos na miséria e nos sofrimentos dolorosos.
Palavras de Filécio, Condutor de Homens.
Vede bem, ó pai omnisciente, a miséria
em que ficámos por culpa de ignotos pecados
Que mal fizemos? Em que te traímos?
Não foi em teu nome que matámos, saqueámos, despojámos, violámos?
Não foi por ti, ó Criador, que tanto destruímos?
Criador de todas as coisas
justiça com as próprias mãos já não farei
Consente nesta hora que com a língua a faça
Dizei, por Deus.
 
Ah, pobre de mim, se dos meus braços uma mulher tivesses moldado
como da costela em sono retirada Eva geraste
Génesis, 2,22.
Agora nem mulher nem mãos, nada me resta,
a ânsias insaciáveis vejo-me condenado
Viril ‘inda me sinto quando de pé permaneço
mas a dor fantasma persiste
onde antes havia dedos em que pôr anéis
mãos com que embalar o berço
e braços com força de bois
Por quem sois.
persiste a dor e tudo em mim esmorece
nada se anima, tudo distrai, tudo desfalece
 
Ensinam os evangelhos:
Assim como na mão há dez dedos
também dez são as espécies de disciplina
Santo António de Lisboa.
Deverei contá-las por estes cotos?
Morto de vontade aqui estou
exercitando os restos do meu corpo
vilmente vestido em tua honra
Tende tu compaixão pelas minhas necessidades
derramando lágrimas de piedade
Ó Deus que te calas e nos queres calados
orando pela noite dentro
com leituras discretas
não vês quanto me desprezo
quando a ti me dirijo sem saber para quem falo?
 
Por onde andas quando em suplicas me desfaço
implorando clemência por males não cometidos?
Logo eu, tão devoto e esforçado,
amigo até das moscas, filho cumpridor e amante fiel
Porque me privaste dos membros
com que Aarão te apresentou os levitas
na terra onde corre leite e mel
Números, 8,10 e 13,17.
 
Com as mãos o teu filho curou o empregado dum oficial romano
Com as mãos curou muitos doentes, um homem com lepra
homens com espíritos maus e paralíticos
Até da morte escura ressuscitou meninas e homens
Só para mim parece não haver cura
amputado dos membros
com o nariz me persigne
até chegar a hora de descer à sepultura
 
Senhor, aqui me tens diante de ti
em verdade confessando
que das dez disciplinas uma não cumpri:
Segundo o que sinto, vós, Senhor, quereis
que queira sofrer, e meu mal não quer
Gil Vicente, Pater noster.
De vinho e de pão não me absterei
por isso trago por companhia esta velha mulher
que de comida e de bebida me sacia
compensando de outros apetites a azia
Milhor é exp’rimentá-o que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exp’rimentá-lo.
Camões, Canto IX (persignando-se.)
 
Louvor ao Pai que tudo quer
pois a quem se confessa Ele perdoa
não restando polegares em qualquer mão
com o nariz me persigno
o gesto não importa, conta a intenção

(A cantar.)
Seja dada glória, honra e reverência,
Seja dado louvor e bênção ao Princípio sem Fim
Amém

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