Um
homem sem braços entra na Capela de Nossa Senhora dos Prazeres. A seu lado, uma
auxiliar vai dizendo os apartes justificados à direita. Diante do altar, ajoelha-se
o homem e persigna-se com a ponta do nariz, invocando a Santíssima Trindade:
Em
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
aqui estamos, Senhor, por tua obra e desgraça
pois no estado em que nos encontramos
nem para dar descanso à comichão servimos
A auxiliar prepara o sermão, à laia de
vira-páginas.
Já
os antigos lamentavam:
Zeus pai, nenhum deus é mais destrutivo que tu.
Não sentes compaixão dos homens, apesar de os teres criado:
envolves-nos na miséria e nos sofrimentos dolorosos.
em que ficámos por culpa de ignotos pecados
Que mal fizemos? Em que te traímos?
Não foi em teu nome que matámos, saqueámos, despojámos, violámos?
Não foi por ti, ó Criador, que tanto destruímos?
Criador de todas as coisas
justiça com as próprias mãos já não farei
Consente nesta hora que com a língua a faça
Ah,
pobre de mim, se dos meus braços uma mulher tivesses moldado
como da costela em sono retirada Eva geraste
a ânsias insaciáveis vejo-me condenado
Viril ‘inda me sinto quando de pé permaneço
mas a dor fantasma persiste
onde antes havia dedos em que pôr anéis
mãos com que embalar o berço
e braços com força de bois
nada se anima, tudo distrai, tudo desfalece
Ensinam
os evangelhos:
Assim como na mão há dez dedos
também dez são as espécies de disciplina
Morto de vontade aqui estou
exercitando os restos do meu corpo
vilmente vestido em tua honra
Tende tu compaixão pelas minhas necessidades
derramando lágrimas de piedade
Ó Deus que te calas e nos queres calados
orando pela noite dentro
com leituras discretas
não vês quanto me desprezo
quando a ti me dirijo sem saber para quem falo?
Por
onde andas quando em suplicas me desfaço
implorando clemência por males não cometidos?
Logo eu, tão devoto e esforçado,
amigo até das moscas, filho cumpridor e amante fiel
Porque me privaste dos membros
com que Aarão te apresentou os levitas
na terra onde corre leite e mel
Com
as mãos o teu filho curou o empregado dum oficial romano
Com as mãos curou muitos doentes, um homem com lepra
homens com espíritos maus e paralíticos
Até da morte escura ressuscitou meninas e homens
Só para mim parece não haver cura
amputado dos membros
com o nariz me persigne
até chegar a hora de descer à sepultura
Senhor,
aqui me tens diante de ti
em verdade confessando
que das dez disciplinas uma não cumpri:
Segundo o que sinto, vós, Senhor, quereis
que queira sofrer, e meu mal não quer
por isso trago por companhia esta velha mulher
que de comida e de bebida me sacia
compensando de outros apetites a azia
Milhor é exp’rimentá-o que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exp’rimentá-lo.
Louvor
ao Pai que tudo quer
pois a quem se confessa Ele perdoa
não restando polegares em qualquer mão
com o nariz me persigno
o gesto não importa, conta a intenção
aqui estamos, Senhor, por tua obra e desgraça
Graça.
Melhor
fora que não estivéssemospois no estado em que nos encontramos
nem para dar descanso à comichão servimos
Zeus pai, nenhum deus é mais destrutivo que tu.
Não sentes compaixão dos homens, apesar de os teres criado:
envolves-nos na miséria e nos sofrimentos dolorosos.
Palavras
de Filécio, Condutor de Homens.
Vede
bem, ó pai omnisciente, a misériaem que ficámos por culpa de ignotos pecados
Que mal fizemos? Em que te traímos?
Não foi em teu nome que matámos, saqueámos, despojámos, violámos?
Não foi por ti, ó Criador, que tanto destruímos?
Criador de todas as coisas
justiça com as próprias mãos já não farei
Consente nesta hora que com a língua a faça
Dizei,
por Deus.
como da costela em sono retirada Eva geraste
Génesis,
2,22.
Agora
nem mulher nem mãos, nada me resta,a ânsias insaciáveis vejo-me condenado
Viril ‘inda me sinto quando de pé permaneço
mas a dor fantasma persiste
onde antes havia dedos em que pôr anéis
mãos com que embalar o berço
e braços com força de bois
Por
quem sois.
persiste
a dor e tudo em mim esmorecenada se anima, tudo distrai, tudo desfalece
Assim como na mão há dez dedos
também dez são as espécies de disciplina
Santo
António de Lisboa.
Deverei
contá-las por estes cotos?Morto de vontade aqui estou
exercitando os restos do meu corpo
vilmente vestido em tua honra
Tende tu compaixão pelas minhas necessidades
derramando lágrimas de piedade
Ó Deus que te calas e nos queres calados
orando pela noite dentro
com leituras discretas
não vês quanto me desprezo
quando a ti me dirijo sem saber para quem falo?
implorando clemência por males não cometidos?
Logo eu, tão devoto e esforçado,
amigo até das moscas, filho cumpridor e amante fiel
Porque me privaste dos membros
com que Aarão te apresentou os levitas
na terra onde corre leite e mel
Números,
8,10 e 13,17.
Com as mãos curou muitos doentes, um homem com lepra
homens com espíritos maus e paralíticos
Até da morte escura ressuscitou meninas e homens
Só para mim parece não haver cura
amputado dos membros
com o nariz me persigne
até chegar a hora de descer à sepultura
em verdade confessando
que das dez disciplinas uma não cumpri:
Segundo o que sinto, vós, Senhor, quereis
que queira sofrer, e meu mal não quer
Gil
Vicente, Pater noster.
De
vinho e de pão não me abstereipor isso trago por companhia esta velha mulher
que de comida e de bebida me sacia
compensando de outros apetites a azia
Milhor é exp’rimentá-o que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode exp’rimentá-lo.
Camões,
Canto IX (persignando-se.)
pois a quem se confessa Ele perdoa
não restando polegares em qualquer mão
com o nariz me persigno
o gesto não importa, conta a intenção
(A cantar.)
Seja
dada glória, honra e reverência,
Seja
dado louvor e bênção ao Princípio sem Fim
Amém
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