Janeiro (Fundação da Casa de Mateus, Vila Real): sobre a
estátua de olhos vendados, o musgo aclara a passagem do tempo. Fevereiro
(Covilhã): reencontrar quem como nós conheceu a humilhação de ficar calado.
Março (Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre, em Melo, Gouveia): em 1972, o
jovem poeta escrevia ao mestre sem saber que o futuro se encarregaria de
desmenti-lo. Abril (Museu de Arte Contemporânea Armando Martins): “Sweet dreams
are made of this”, de Carlos Aires, ou só acredito num deus que dance. Seguido
da roda na Santa Casa, os expostos, os enjeitados, os sinais, este pormenor: «À
época, o Hospital dos Expostos atribuía o nome seguindo um sistema alfabético.»
Tal como se faz aos cavalos. Chuva Ácida, nas Caldas, depois de uma noite
improvável num bar sem luz, em obras. Quimera, creio que assim se chamava. Maio
(MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia): “Terra Poética”, de Anna
Maria Maiolino. O que diriam as pegadas se falassem? Que foi diferente a viagem
que fizeram. E um fóssil, o que diria? Ser o que resta de quem por ali passou?
Ainda em Maio, na Gulbenkian, trajectos e diálogos. “Cena com um enforcado”, de
António Pedro. “Astúcia e Sedução”, de Sérgio Pombo. Um episódio: a assistente de
sala enquanto obra exposta. Uma performance em Santa Catarina, os arquivos da
Ephemera na Marmeleira. Ideia possível a desenvolver no futuro: a grande
batalha do lixo, aqueles que, entre o lixo, pelejam para ficarem na história,
isto é, arquivados. Junho (MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia): os
desenhos de Manuel João Vieira impressionaram-me, assim como a instalação sobre
o mundo político. Melhor do que esperava. Tentar responder à pergunta: «O que é
que eu faço?» Mas responder a traço grosso e a preto e branco. O concerto da
Lucrecia Dalt, o baterista Alex Lazaro (curiosidade enviada pelo Parra). Uma
hipótese: um emaranhado de cabos enquanto Torre de Babel. Julho: regresso ao
Rogil, depois de um ano em falta. Andorinhas e gato preto. A Estação das Artes
do Azguime, em Santa Clara-Sabóia. Admirável, invejável. Pelo caminho, lugares
despovoados em que é possível comer uma sandes e beber uma cerveja. Velhos que
nos comovem. Agosto (Casa dos Patudos, Alpiarça): investigar sobre o filho
suicida, o pianista Carlos de Loureiro Relvas. Curioso acervo. Ali perto, a
casa-estúdio do fotógrafo, o avô. E em Constância, a biblioteca doada por O’Neill.
Como ligar tudo isto? Famílias, desavenças, frustrações, percursos, vidas que
correm como a água nos rios. O tempo está em tudo, Yourcenar, já sabemos há
muito que até no tempo o tempo está. Mas larguemos as filosofias, a guia na
Casa dos Patudos merece menção honrosa. No MNAC – Museu Nacional de Arte
Contemporânea, Alicie Geirinha fala-nos de bruxas, há pelo museu legendas
trocadas, obras por legendar, uma grande confusão. Talvez queiram transformar
aquilo num labirinto. O visitante que descubra. Na cafetaria não servem cafés.
O diálogo pífio entre o antigo e o contemporâneo não convence, sobretudo pelo
linguajar na folha de sala medíocre. Mas gosto muito do quadro “As três Idades”,
que a legenda diz ser de Eduardo Viana, mas o Almeida garante ser de António
José Pereira. A colectiva Ultratremor vale a pena, assim como a mostra de Maria
José Oliveira. Materiais pobres para ideias ricas. Tem qualquer coisa de zen,
devolve-me à paz da terra fazendo lembrar, aqui e acolá, descobertas arqueológicas.
Como se tudo aquilo tivesse sido desenterrado. Agora que penso no assunto,
dialoga perfeitamente com o trabalho da Anna Maria Maiolino. Para já, é tudo.
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