terça-feira, 22 de setembro de 2026

JOSÉ VIALE MOUTINHO (1945-2026)

 


10.
 
Ando cansado, amargurado, sem um sorriso, e os olhos
doem-me ao cair da tarde. Como um anjo aborrecido,
lento, aproximo-me dos livros, dos papéis e tento acender
um fósforo inutilmente. Já não conheço a literatura, meu amor.
 
A literatura não vem nos jornais, embora tropece nos silêncios,
nos degraus, nos bancos do jardim, embora tenha nascido
nocturna. Ando perdido, e nas pedras negras da costa
vejo o último atalho, a garrafa dos apelos finais abandonada.
 
José Viale Moutinho, in Ocasos de Iluminação Variável, Editora Ausência, Abril de 2005, p. 22.

1 comentário:

vieira da silva disse...

Perdemos um grande escritor que nunca se deixou adormecer e se manteve a olhar para o futuro. Perdi um grande Amigo.