Quem nos sobra? Agora que todos partiram, quem resta para cantar as nossas mágoas e paixões, alegrias e tristezas, coisas que a boca não se atreveria a enunciar? Quem anda por aí que ainda mereça encómios à hora da despedida? Vem de tempos distantes este rapaz com guitarra a tiracolo, com Etelvina pela mão e o coro de velhas a divertir um primeiro dia que resume a vida inteira. Não é certo que tenha começado a ouvir esta voz e as palavras nesta voz com maturidade suficiente para a entender, mas algo semeado foi crescendo com o tempo. As pessoas, isto é, quem elas são, como se comportam, interessam-me cada vez menos, mas o fruto da criação ainda me convence de alguma maneira, ainda me comove. Nesses anos 80 em que era eu um petiz imberbe de galochas a caminho da escola, com o walkman à cintura como um coldre de cowboy, ouvia o que mais ninguém ouvia e dizia: isto é mesmo bom. Mas à minha volta ninguém ligava àquelas BASF vindas sei lá eu de onde, andava tudo no hard rock indigente de que nada sobra. Quem nos sobra? Sobram-nos estas palavras escritas como quem retrata os dias, um modo de cantar em língua portuguesa diferente de tudo o mais, por vezes dizendo como que cantando porque as palavras aqui têm uma relevância fulcral. A música também, claro, os arranjos, claro, e tudo isso sendo renovado com o passar das décadas que aproximou o cantautor da pop, do rock, do hip-hop e de outras modernices programadas que a tecnologia imprimiu nas nossas vidas. Ainda assim, sempre as palavras, este rapaz de palavras que tanto canta Camões como O’Neill ou Rimbaud. Já devem andar por aí arquivados, à espera de ver a luz, os necrológios que a morte desperta, tenho a certeza de que já andam por aí desfilando elogios. Eu lembro-me do homem detido no Brasil, a polémica que foi, e como isso me despertou para as certezas do meu mais brilhante amor. Era uma vez um rapaz, creio ter sido a porta aberta para esta companhia ininterrupta. Ainda ponderei o divórcio, mas as palavras falaram sempre mais alto. São poderosas as palavras.

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