sexta-feira, 16 de outubro de 2026

BOLSA DE FINADOS

 
Quando tudo é campeonato, quando tudo é submetido à lógica competitiva, dos números de seguidores aos concursos de casados, dos campeonatos de poesia às maratonas festivaleiras, damos conta do calcanhar de Aquiles em que a humanidade inteira se transformou. A vida enquanto game show, jogo de azar, concurso público, tabuleiro sem peças, a vida raspadinha aí está diante de nós com seus rankings de mérito e felicidade. O Império capitalista ganhou, não há refúgio que nos valha, a toxicidade concorrencial infiltrou-se até onde a julgávamos abolida, no amor, na amizade, na liberdade. É para aí um ver se te avias de campeões, de heróis e giovannis, que uma pessoa até tem medo, tal o gigantismo dos egos exacerbados e a proliferação de génio. Vamos todos finar burros que nem portas, mas só alguns carregados de medalhas e condecorações e taças e bicicletas. Pobres goghs, kafkas, pessoas, pobres de todos esses que em vida passaram ao lado dos pódios atravessando em último as metas do sucesso. Está para breve a substituição do baptismo pelo chip dos campeões. Se é para nascer, que seja para os primeiros lugares na bolsa de finados.

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