Quando tudo é campeonato, quando tudo é submetido à
lógica competitiva, dos números de seguidores aos concursos de casados, dos
campeonatos de poesia às maratonas festivaleiras, damos conta do calcanhar de
Aquiles em que a humanidade inteira se transformou. A vida enquanto game show,
jogo de azar, concurso público, tabuleiro sem peças, a vida raspadinha aí está
diante de nós com seus rankings de mérito e felicidade. O Império capitalista
ganhou, não há refúgio que nos valha, a toxicidade concorrencial infiltrou-se
até onde a julgávamos abolida, no amor, na amizade, na liberdade. É para aí um
ver se te avias de campeões, de heróis e giovannis, que uma pessoa até tem
medo, tal o gigantismo dos egos exacerbados e a proliferação de génio. Vamos
todos finar burros que nem portas, mas só alguns carregados de medalhas e
condecorações e taças e bicicletas. Pobres goghs, kafkas, pessoas, pobres de
todos esses que em vida passaram ao lado dos pódios atravessando em último as
metas do sucesso. Está para breve a substituição do baptismo pelo chip dos
campeões. Se é para nascer, que seja para os primeiros lugares na bolsa de
finados.
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