sexta-feira, 9 de outubro de 2026

RECLAMAÇÃO

 
Fazem-me falta poetas que cantem as cabeleiras grisalhas das mulheres exangues, os músculos flácidos dos homens estéreis, as constelações de manchas na pele ressequida, dentes debilitados por cáries internas, a carne engelhada dos velhos, rostos amarrotados por olheiras fundas, fazem-me falta poetas que cantem a velhice sem resvalarem na retórica saudosista dos gloriosos passados e dos paraísos perdidos e dos amanhãs silenciados, sem canto, mortificados. Fazem-me falta poetas que falem do corpo como uma cedência por comodato e da vida como um instante perdurável e do tempo como o sopro estanque de humanidade que sempre foi o que é. Poetas capazes de abolir o uso do advérbio agora por contramedida a um antes que não foi melhor nem pior, foi diferente. Poetas que não temam a tristeza nem a imponham ao presente por nostalgia de magistrais infâncias, oníricas infâncias de colo e mimo, sem pés descalços nem fome nem nódoas negras de trabalho infantil forçado. Cansado que me encontro desses paraísos íntimos e pessoais, cantados como se mundo outro não houvesse, quedo-me a assobiar a falta que me fazem os poetas que permutem o canto não pelo lamento, mas, vá lá, pela assumpção de um destino para todos igual, a despeito das paisagens em que um corpo brota. Faz-me falta a verdade, a honestidade, o grito autêntico que não tema a melancolia nem a loucura nem a morte.

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