quinta-feira, 1 de outubro de 2026

SEIS NOITES NA ACRÓPOLE

 


Prémio Nobel da Literatura em 1963, Yórgos Seféris (Esmirna, Império Otomano, 1900 – Atenas, 1971) só publicou poesia e ensaio em vida. Também Strátis, personagem principal de Seis Noites na Acrópole (1974), aspira a poeta e ensaísta. Publicado agora em Portugal pela E-Primatur, com tradução de José Luís Costa, este romance póstumo transporta-nos para a Grécia «nos tempos da ditadura de Pángalos», portanto, entre 1925-26, através de um grupo de jovens intelectuais que busca «ganhar coesão» reunindo-se na Acrópole em noites de lua cheia. O retrato é de desalento, uma Grécia com a identidade em ruínas, visitada por turistas, povoada por bêbados, putas e jovens desencantados. As relações no interior deste grupo de aspirantes a intelectuais, são, de algum modo, metonímicas da dispersão, do desterro, do exílio em que os gregos viveram carregando aos ombros os destroços de um passado glorioso. As aventuras amorosas, também elas malogradas, encontram no lugar do bordel a representação mais naturalista da decadência social em que as personagens estão metidas. Alternando entre a prosa diarística de uma personagem e o relato dos acontecimentos, Seféris deixou-nos nesta obra um testemunho pungente do sentimento de solidão que o perseguiu como sombra de uma identidade cultural fracturada. Restam ruínas:
 
«Repara como os nossos gestos, movimentos e actos se transformam de modo fulminante em mármore mal entram no passado, como se se afundassem em ar liquefeito. E tudo permanece sólido e imóvel pelos séculos dos séculos; nada pode mudar a sua consumada posição. Geramos estátuas a cada momento. Feriu-me esta ideia como uma súbita visão. É de enlouquecer, se insistirmos na reflexão.»

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