AUTO-RETRATO
Mago de me fazer história e guerra,
Capaz em cada imagem de servir
A minha imagem d'oiro, que um porvir
Breve desfaz e n'outra imagem se erra,
Ou louco de temer-me, pela serra,
Árvore doida em transe de florir
Mãos como frutos e olhos a dormir
Ao marulho das ondas, sobre a terra,
Quero-me, tonto, a tornar exacto e certo,
Quotidiano e vil, como suponho
Tão necessário que se seja, aquilo
Que ultrapassando o limiar incerto
Do que é, em suave (de divino) trilo
Recria em mundo o que nasceu num sonho.
(In «Casa de Campo»)
Maria de Fátima Marinho, in O Surrealismo em Portugal, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Março de 1987, p. 607.

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