PLANOS
VERTICAIS E HORIZONTAIS NO ATELIER
O
meu amigo pintor vivia de se esconder
nos recantos mais delicados do atelier.
À direita do norte menos afectado
ficava o seu recanto predilecto: a memória.
Lá se aposentava durante longos períodos
sempre que o crânio lhe cedia à pressão
que os calendários exercem sobre nós.
O
segundo recanto por si mais apreciado
era aquele que todos conhecem por realidade,
mas, para o meu amigo pintor, a realidade
não era o tecto sob o qual nos maquilhamos
nem mesmo a alfândega por onde têm de passar
os sonhos que desejem penetrar o mundo.
Para ele, a realidade era uma espécie de balão
que nunca rebenta, por mais que sopremos.
Tinha
ainda por recanto, o tal meu amigo,
talvez o mais delicado de todos os recessos:
essa brisa que dá pelo nome de imaginação.
A imaginação também é, como todos sabem,
a puta com que se deita a inconsciência.
Porém, para o meu amigo pintor, a imaginação
era, de todos os recantos do seu atelier,
aquele em que se sentia mais a acoberto da luz.
O
meu amigo pintor era um tipo esforçado,
ainda que muito raramente lhe sangrassem
os dedos para dentro das regiões modeladas.
Tenho mesmo a impressão de que esse vício
de esconder-se nos recantos mais delicados
do seu atelier era o seu ócio de servir-se,
como gostam de fazer todos os artistas,
quando mais não têm para dar do que planos
verticais e horizontais das suas próprias mãos.
Henrique
Manuel Bento Fialho, in “Cintilações da Sombra 2 (antologia poética)”,
coordenação de Victor Oliveira Mateus, Labirinto, Fafe, s/d, pp. 33-34. Com
poemas de Adalberto Alves, Albano Martins, Alfredo Pérez Alencart, Alice Fergo,
Alice Vieira, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, Ana Zanatti,
António Carlos Cortez, António José Queiroz, António Salvado, Artur Coimbra,
Astrid Cabral, Carlos Afonso, Carlos Vaz, Cecília Barreira, Cláudio Lima,
daniel gonçalves, Delmar Maia Gonçalves, Ernesto Rodrigues, Gabriela Rocha Martins,
Gisela Ramos Rosa, Gonçalo Salvado, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês
Lourenço, Inez Andrade Paes, Isabel Miguel, Ivone Mendes da Silva, Jaime Rocha,
João de Mancelos, João Rasteiro, Jorge Velhote, José Acácio Almeida, José
Agostinho Baptista, José Ángel García Caballero, José do Carmo Francisco, José
Emílio-Nelson, José Jorge Letria, José Manuel Teixeira da Silva, Juan Carlos
Olivas, Licínia Quitério, Luís Filipe Sarmento, manuel a. domingos, Manuel
Silva-Terra, Marcela Filippi Plaza, Marcus Fabiano Gonçalves, Margarida Vale de
gato, Maria Augusta Silva, Maria do Rosário Pedreira, Maria João Cantinho,
Maria Tosano, Marta López Vilar, Miguel Veyrat, Paulo Franchetti, Pompeu Miguel
Martins, Ricardo Domeneck, Ricardo Gil Soeiro, Rita Moutinho, Rita Taborda
Duarte, Ronaldo Cagiano, Rui Rocha, Rui Tinoco, Santiago Aguaded Landero,
Teresa Rita Lopes, Vera Lúcia de Oliveira, Victor Oliveira Mateus e Violeta
Boncheva.
nos recantos mais delicados do atelier.
À direita do norte menos afectado
ficava o seu recanto predilecto: a memória.
Lá se aposentava durante longos períodos
sempre que o crânio lhe cedia à pressão
que os calendários exercem sobre nós.
era aquele que todos conhecem por realidade,
mas, para o meu amigo pintor, a realidade
não era o tecto sob o qual nos maquilhamos
nem mesmo a alfândega por onde têm de passar
os sonhos que desejem penetrar o mundo.
Para ele, a realidade era uma espécie de balão
que nunca rebenta, por mais que sopremos.
talvez o mais delicado de todos os recessos:
essa brisa que dá pelo nome de imaginação.
A imaginação também é, como todos sabem,
a puta com que se deita a inconsciência.
Porém, para o meu amigo pintor, a imaginação
era, de todos os recantos do seu atelier,
aquele em que se sentia mais a acoberto da luz.
ainda que muito raramente lhe sangrassem
os dedos para dentro das regiões modeladas.
Tenho mesmo a impressão de que esse vício
de esconder-se nos recantos mais delicados
do seu atelier era o seu ócio de servir-se,
como gostam de fazer todos os artistas,
quando mais não têm para dar do que planos
verticais e horizontais das suas próprias mãos.

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