sexta-feira, 19 de março de 2021

LUJON (1961)

 


Dia do pai, fui ver o meu. Comemos amêijoas, berbigão, camarões. A minha irmã esmera-se nos ajuntamentos familiares. Não direi quantos éramos à mesa para não me acusarem de crimes contra a humanidade, mas confesso que não foi possível comer nem beber com máscara sobre as trombas. Ainda tentei, sem sucesso. É sina. Distanciamento do costume, para descanso das hostes. Havia também duas criaturas caninas que finalmente se conheceram, o Delfim e a Nala. Uma agitação. Enquanto olhava os moluscos nas frigideiras fui assaltado pela imagem de meu pai a atravessar a Lagoa de Óbidos comigo às cavalitas. Fazíamos praia no Bom Sucesso. No regresso, parávamos nos campos para apanhar caracóis. Eram paneladas de caracóis que só visto. Tudo regado com vinho de produção caseira, que depois engarrafávamos no quintal da casa pobre. Rica casa. Extasiava-me com as rolhas a flutuarem em água a ferver, puta de imagem que nunca mais me abandonou. Aos domingos, dia de folga, o velho aceitava-nos na cama, aos dois mais novos, e contava-nos histórias. Foi o meu primeiro contador de histórias, devo-lhe a homenagem. Fábulas. Incansável no trabalho, ainda hoje, com 77, foi porém um pai relativamente ausente. Quem cuidava de nós era a mãe. O pai matava-se a trabalhar com um futuro melhor no horizonte. O que era um futuro melhor? O presente? Casa boa, carro, filhos formados, isto é, cursados, cultos, a salvo da estupidez que engolia a maioria. Deixou de ser assim? As minhas irmãs sofreram com preconceitos de que só mais tarde se libertou. Eu também, mas menos. Certa austeridade, típica de um homem com a 4.ªclasse nascido e criado numa aldeia pobre, a labutar desde os 11 anos, atirado para uma guerra estúpida numa África distante. Era radiotelegrafista, safou-se ao mato. Mas deve ter visto coisas menos boas, de que não fala. Assim como pouco fala dos tempos de criança, que também não terão sido agradáveis. Os meus avós eram alcoólicos, tema ainda hoje relativamente tabu. Apesar de tudo tem sido bom pai, foda-se. Seria injusto queixar-me. Eu é que não sei se tenho sido bom filho. Chego a casa, deito-me a ouvir Down to Earth, do organista Freddie Roach, e invejo Kenny Burrell na guitarra. Nada mais invejo neste mundo do que um guitarrista de excelência, só queria ser, ter sido, poder ser, um guitarrista de excelência. Já agora, o tema em causa foi composto por Henry Mancini. Mestre do easy listening, fartou-se de compor para cinema e televisão. O original de Lujon ouve-se, a dado momento, no filme The Big Lebowski. Também gosto desta versão:



2 comentários:

Manuela Fialho disse...

Memórias...

Unknown disse...

E o Sol quando nasce é para todos...