151. Falou-me de pétalas que coleccionava em cadernos de papel grosso, folhas numeradas a caneta de tinta permanente. Eram, dizia-me, os exemplares translúcidos das mais simples imagens do corpo.
152. Sinto o corpo, este mesmo que me obedece. Sentir a sua obediência é sentir-me como uma verdade. Depois, há as outras verdades sentidas, mas todas com o mesmo sentimento de espessura.
153. A verdade é um atributo dos corpos. São duas, porém, as suas modalidades: ou a verdade se resolve num dar corpo ao que já o espera, uma ideia, uma expectativa — e, então, a verdade é satisfação, adequação —, ou a verdade vem com o movimento de um corpo inesperado, sem ideia nem referente. Só a segunda convém ao desejo dos corpos.
154. Pode-se falar de verdades contidas e de verdades livres, dois tipos portanto, como da diferença entre dar corpo a uma ideia e fazer a ideia de um corpo.
155. Se os nomes são os corpos da Linguagem, então aqueles servem-nos como instalações da verdade. É nos nomes que damos às coisas que instalamos a sua verdade, mesmo que ainda não saibamos nada dela.
156. Há nomes que não nos inventamos — os nossos corpos a título exemplar —, e, por isso, há verdades que precedem todas as palavras. São verdades tão singulares como os nomes próprios.
157. Podemos reproduzir verdades contidas porque temos o poder de tornar a experimentá-las — basta para isso recordar ideia e esperar que ganhe corpo. O mesmo não sucede com as verdades livres, nelas apenas podemos recordar o facto de terem acontecido, a singularidade do impacto que tiveram.
158. O tédio da vida surge quando desta já só vemos o que esperamos ver. E surge porque, então, a vida já só é morte e a morte já só é a vida que resta sentir.
159. Posso ver numa paisagem uma paisagem e tudo é claro, mas pode uma paisagem fazer-me ver sem que eu saiba dizer exactamente o quê, de certeza não apenas uma paisagem. É nesta possibilidade que se joga um autêntico regresso às coisas, contra o tédio da vida. E o que digo das paisagens não é menos válido se dito das pessoas, dos amigos, até de mim mesmo, a saber, que só encaramos realmente a vida permitindo-nos provar radicalmente a experiência.
160. Só se compreende que a criatividade importe à arte, se se começar por compreender que a arte se distingue por nos obrigar a uma experiência radical.
161. Um empirismo radical é sempre da ordem do artístico. E o que este faz é inverter a ordem do ver — já não sou eu que vejo as coisas, são as coisas que me fazem vê-las.
162. Só podemos falar de obras de arte porque essas obras proporcionam um certo tipo de experiência, digamo-la artística; mas só podemos falar de tal experiência se alguém se permite expor-se-lhe na sua radicalidade — não há, pois, arte sem disponibilidade para a experienciar.
163. Disponibilizar-me para a experiência radical é submeter-me ao acaso, sem domínios prévios ou vontade de poder em exercício; é sofrê-lo sem me permitir contê-lo. E nisto não é só a experiência que se radicaliza: também a compreensão se torna vivida na sua forma mais radical.
164. Esta é uma forma de compreender a estética — o acaso ser vivido como uma lei necessária que não legislei, nem legislarei.
165. De certo modo, gostaria de poder afirmar que a arte está para a filosofia como a verdade viva para a verdade da vida, pois a vida não se suporta se não se regressar, nem que seja de quando em quando, à experiência bruta das coisas. E esta é uma afirmação filosófica.
166. Por vezes distraio-me das coisas simplesmente para que as coisas não me distraiam ou, dito de outro modo, para permanecer atentamente desatento. E então já só ouço o tempo sendo. Apercebo-me assim que, derradeiramente, é o ouvido o sentido que mais convém ao tempo.
167. Não poderia falar do que não fosse capaz de imaginar, e menos ainda pdoeria eu imaginar algo a não ser a partir de algo que, de alguma forma, já tivesse vivido — donde, no fundo, não suceder nunca que alguém mergulhe por inteiro na ignorância.
168. Entre o objecto de uma experiência e a experiência desse objecto vai uma diferença tão grande quanto a que opõe o repetível ao irrepetível. Por exemplo, veja eu algo. Agora perguntem-me o que vejo. Responderei publicamente que o que vejo é isto ou aquilo, que é desta forma ou daquela. Mas perguntem-me também como vejo isso que vejo e reparem então como a resposta é outra: discurso sem verdade nem falsidade, simples metáfora em exercício de confrontação com outros «como vi», todos irrepetíveis, todos privados.
169. Há experiências mudas, não há significações mudas; há significações privadas, não há objectos privados.
170. Falamos de experiências mentais como se houvesse também simples experiências, outras, não mentais portanto; mas esse é um engano considerável, pois a haver diferença — e haverá com certeza — entre o mental e essa outra mentalidade não será mais do que um efeito mental.
171. Não é verdade que haja em mim algo inacessível aos outros, como se isso que há em mim fosse uma linguagem privada e o que há nos outros fosse outras linguagens privadas. Não, não há nada em mim inacessível por si só; o que sucede, seja isso bom ou mau, é que o meu cmainho de acesso às coisas não é caminho que mais alguém possa percorrer.
172. Se te digo quem me dera ver as coisas como tu as vês, não são as coisas que me faltam; mas, simplesmente, estar contigo na estrada que te leva a uma paisagem.
173. Fôssemos absolutamente transparentes um ao outro, não seria por isso que saberia se existes, sequer se eu próprio existo. Nisto não há qualquer solipsimo; aliás, como eu vejo as coisas, esta é bem a sua refutação.
174. Há coisas que podemos conhecer profundamente, e, todavia, nunca chegar a saber se existem. É o caso da interioridade.
André Barata & Rita Taborda Duarte, Círculos / Dos sentidos das coisas, com ilustrações de Luís Henriques, Editorial Caminho, 2007, pp. 59-62.

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