Dia do pai, fui ver o meu. Comemos
amêijoas, berbigão, camarões. A minha irmã esmera-se nos ajuntamentos
familiares. Não direi quantos éramos à mesa para não me acusarem de crimes
contra a humanidade, mas confesso que não foi possível comer nem beber com
máscara sobre as trombas. Ainda tentei, sem sucesso. É sina. Distanciamento do
costume, para descanso das hostes. Havia também duas criaturas caninas que
finalmente se conheceram, o Delfim e a Nala. Uma agitação. Enquanto olhava os
moluscos nas frigideiras fui assaltado pela imagem de meu pai a atravessar a
Lagoa de Óbidos comigo às cavalitas. Fazíamos praia no Bom Sucesso. No
regresso, parávamos nos campos para apanhar caracóis. Eram paneladas de
caracóis que só visto. Tudo regado com vinho de produção caseira, que depois engarrafávamos
no quintal da casa pobre. Rica casa. Extasiava-me com as rolhas a flutuarem em
água a ferver, puta de imagem que nunca mais me abandonou. Aos domingos, dia de
folga, o velho aceitava-nos na cama, aos dois mais novos, e contava-nos
histórias. Foi o meu primeiro contador de histórias, devo-lhe a homenagem.
Fábulas. Incansável no trabalho, ainda hoje, com 77, foi porém um pai
relativamente ausente. Quem cuidava de nós era a mãe. O pai matava-se a
trabalhar com um futuro melhor no horizonte. O que era um futuro melhor? O
presente? Casa boa, carro, filhos formados, isto é, cursados, cultos, a salvo
da estupidez que engolia a maioria. Deixou de ser assim? As minhas irmãs
sofreram com preconceitos de que só mais tarde se libertou. Eu também, mas
menos. Certa austeridade, típica de um homem com a 4.ªclasse nascido e criado
numa aldeia pobre, a labutar desde os 11 anos, atirado para uma guerra estúpida
numa África distante. Era radiotelegrafista, safou-se ao mato. Mas deve ter
visto coisas menos boas, de que não fala. Assim como pouco fala dos tempos de
criança, que também não terão sido agradáveis. Os meus avós eram alcoólicos,
tema ainda hoje relativamente tabu. Apesar de tudo tem sido bom pai, foda-se.
Seria injusto queixar-me. Eu é que não sei se tenho sido bom filho. Chego a
casa, deito-me a ouvir Down to Earth,
do organista Freddie Roach, e invejo Kenny Burrell na guitarra. Nada mais
invejo neste mundo do que um guitarrista de excelência, só queria ser, ter
sido, poder ser, um guitarrista de excelência. Já agora, o tema em causa foi
composto por Henry Mancini. Mestre do easy
listening, fartou-se de compor para cinema e televisão. O original de Lujon ouve-se, a dado momento, no filme The Big Lebowski. Também gosto desta
versão:

2 comentários:
Memórias...
E o Sol quando nasce é para todos...
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