sábado, 13 de março de 2021

OS TRABALHOS MAIS LEVES

 

Uma nuvem de puritanismo vem atravessando a paisagem, cobrindo tudo com uns tons macambúzios que levam a adivinhar em cada esquina a ameaça dos cuidadores da moral e dos bons costumes. Seja nos países ditos desenvolvidos, os das autoproclamadas culturas superiores, onde julgávamos terem a laicidade e a secularidade desenferrujado o pensamento, seja naqueles onde a razão continua refém de crendices, ou noutros onde a liberdade de expressão nunca foi valor a ter em conta, o moralismo mais hipócrita e o puritanismo mais serôdio vêm poluindo a atmosfera e infestando com tremeliques de pudor povos e gentes cada vez mais permeáveis a variadíssimas e subtis formas de censura. Debates sempre pertinentes acerca de problemas complexos como o assédio sexual, o racismo, a homofobia, entre outros, degeneram eles mesmos nesse obscurantismo moralista que, tantas vezes, à força de pretender impor uma perspectiva justa, acaba por se deixar enredar na teia de vícios que denuncia e se esforça por combater. Note-se o caso recente em torno da tradução do poema de Amanda Gorman, recitado durante a tomada de posse do presidente norte-americano Joe Biden. A intenção de publicar o famigerado poema em países europeus levou a que pelo menos dois tradutores fossem afastados desse trabalho por não se “ajustarem” às idiossincrasias de quem o escreveu, que é o mesmo que dizer por não serem negros. Eis como a mensagem de comunhão promovida pelos versos da jovem Gorman acabou transformada em mais um exemplo de segregação. Não faltam paradoxos congéneres a quem pretenda encontrar um padrão neste clima, assente, antes de mais, no paternalismo estupidificante de elites para quem as massas devem ser protegidas do pensamento. Por cá, Os Mais, de Eça de Queirós, ainda fere susceptibilidades, inspirando agora a sugestão de notas pedagógicas que enquadrem putativas passagens racistas na obra. Mas e que fazer com Os Lusíadas? Haverá texto mais etnocêntrico na história portuguesa? E a Bíblia, é para queimar? Há 6 meses, talvez nem tanto, a notícia era sobre E Tudo o Vento Levou, clássico do cinema que a HBO resolveu retirar do seu catálogo por haver no filme uma visão idílica da escravatura. Pela mesma altura, as autoridades gregas expulsavam e abandonavam à deriva no mediterrâneo centenas de migrantes. Não estará tudo ligado? Não é por causa da hipocrisia dos lobos que se sacrificam os bodes? Em matéria sexual o cenário é igualmente confrangedor. Do escândalo provocado pela reprodução de A Origem do Mundo, de Gustave Coubert, na capa dum livro exposto numa feira do livro, à censura a que sujeitaram parte das fotografias de Robert Mapplethorpe em Serralves, percebe-se toda uma tendência que culmina nos êxtases místicos do eurodeputado Nuno Melo a espumar de indignação por causa dos conteúdos da disciplina de Cidadania. Por outro lado, também a Porto Editora, império do livro em Portugal, foi objecto de condenação por parte de outras hordas de beatos, para quem a publicação de livros para meninos e para meninas é uma opção sexista e discriminatória. Diante disto, as activistas espanholas que separam os galos das galinhas para que aqueles não violem estas são só uma cereja no topo do bolo. Mas que esperar quando tanta gente amiga no Facebook convive pacificamente com a censura a que é subordinada, por exemplo, quando partilha o “conteúdo sexualmente explícito” duma Vénus de Willendorf? A mim, no Instagram, censuraram-me um poema de Katerina Gogou por conter linguagem violenta, quiçá mais violenta para as almas puras das redes sociais do que a linguagem ali exposta, diariamente e às toneladas, aliciando utilizadores para sites e redes de pornografia. Será crime o piropo no Instagram? Num país com uma respeitável tradição satírica e erótica, cabe questionar como poderá o clima acima aludido reflectir-se na produção literária actual. Os trabalhos mais leves (69 poemas de jubilosa compenetração) (Húmus, Fevereiro de 2021), de Pedro Teixeira Neves (n. 1969), pode não estar minimamente vocacionado para essa tarefa de censura dos censores que é preciso realizar, mas transporta em si mesmo um gesto de provocação que permite, pelo menos, arejar o ambiente. O título não engana, é até assaz revelador da matéria que anuncia. Teixeira Neves tem vários livros de poesia publicados, assim como obras de ficção e livros infantis. A estreia na poesia deu-se com Chiasco (Quasi Edições, 2006), ao qual se seguiram títulos tais como A Tartaruga de Bob Wilson (Glaciar, 2018) e Uma Vírgula Depois (Glaciar, 2019), este último em conjunto com Ivo Machado. Os trabalhos mais leves é, grosso modo, um livro de divertimentos, 69 pequenos poemas de cariz licencioso que não estão minimamente preocupados com o tipo de avaliações a que possam ser submetidos. Escudados por detrás de um humorismo culto, desafiam a imaginação com jogos de palavras, combinações engenhosas, trocadilhos, alusões que apelam a um imaginário sexual que não está isento de mácula. Uns mais fesceninos do que outros, há deles que têm qualquer coisa de popular, aproximam-se do tipo de charge que ilustra todo um anedotário sexual cujo efeito mais imediato em poesia é a subversão do tom sublimado, por vezes enjoativo, da chamada lírica amorosa. Mais dados ao corpo do que ao espírito, não deixam de ser espirituosos no e pelo modo como ironizam sentimento e emoção. São também neste aspecto uma forma de superar, através do cómico, o cinzentismo do tal puritanismo que a todos afecta e de que o universo poético não é apenas vítima, dominado que está pelos seus próprios zeladores com exércitos de parabolanos para quem o excesso e o exagero, o riso e o paródico, o burlesco e o caricatural, sendo artes menores devem ser varridos da poesia. A esses, não há como resistir a propor alguns
 
Exercícios de manutesão
 
Exercício 1
estimular o cio
no lar ou noutro qualquer lugar
esfregando óleos de luar

 
Exercício 2
chamar os preliminares
a conjugar amor e mar
eventualmente recorrendo ao bar;
esperar até faltar o ar.

 
Exercício 3
chamar mais um
ou uma para o jantar.

 
Exercício 4
tirar o três.
 
Exercício 5
excitar a mão
até ao ponto de combustão
(lenta para melhor aquecimento)

 
Exercício 6
aprender a perder
a inocência aprender
a ser espuma

 
Exercício 7
aprender o galope
até aprender o golpe

 
Exercício 8
ensaiar
pressentir a música dos vulcões
ciciar o seu vocabulário de ais
até ao derrame dos verbos animais

 
Exercício 9
ensinar os ais
às serviçais
no intervalo das lições
no intervalo dos lençóis.

 
Exercício 10
nunca deixar o cio à porta
o cio a seu dono.

1 comentário:

brancas nuvens negras disse...

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